Sobre o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi

Para os interessados em Filosofia, Ciência, Religião, Espiritismo e afins, o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi é um blog sem fins lucrativos que disponibiliza uma excelente coletânea de livros, filmes, palestras em áudios e vídeos para o enriquecimento intelectual e moral dos aprendizes sinceros. Todos disponíveis para downloads gratuitos. Cursos, por exemplo, dos professores Huberto Rohden e Pietro Ubaldi estão transcritos para uma melhor absorção de suas exposições filosóficas pois, para todo estudante de boa vontade, são fontes vivas para o esclarecimento e aprofundamento integral. Oásis seguro para uma compreensão universal e imparcial! Não deixe de conhecer, ler, escutar, curtir, e compartilhar conosco suas observações. Bom estudo!

domingo, 30 de agosto de 2015

MOMENTO DIFÍCIL

Comentário(s)

 Publicado no jornal A tarde de 27 de agosto de 2015.
Por Divaldo Franco
O mundo está em crise, e o Brasil estertora, conforme o noticiário de todo instante. Sucedem-se os escândalos, e as surpresas com as pessoas envolvidas produzem um duplo efeito: desencanto em confiar em indivíduos de aparente apresentação digna, inimputável, mantenedores, no entanto, de conduta vulgar e criminosa, assim como a perda da esperança em dias melhores ante a cultura da desonestidade que campeia à solta. A questão, no entanto, é mais ampla porque se apresenta com caráter internacional. O ser humano parece ter perdido o rumo ético, entregando-se aos excessos de toda ordem, revivendo preconceitos bárbaros que se repetem causando lástima e compaixão.

Haja vista o que o Estado Islâmico está realizando em uma cidade do Iraque onde se encontram cristãos. Além de destruir todos os monumentos que honram o passado e são patrimônio da humanidade, estão degolando selvagemente os adeptos do Cristo, em espetáculo de hediondez, repetindo com mais crueldade as perseguições promovidas pelo Império Romano durante os três primeiros séculos do nosso calendário.

Os crimes crescem assustadoramente, e os cidadãos nos encontramos amedrontrados, receando as ruas e também a intimidade dos lares, onde os bandidos se adentram e cometem arbitrariedades. Como mecanismo de fuga, os brasileiros sorrimos dos comportamentos anedóticos de autoridades que deveriam zelar pelo idioma pátrio, sem aventureirismos ridículos, através dos veículos da comunicação virtual. Não serão resolvidos os dramas existenciais com a zombaria, as reclamações, os doestos. Tornam-se indispensáveis comportamentos corretos, conscientização de possibilidades de ação através das leis que vigem no país.

Se cada cidadão e cidadã brasileiros cumprirem com o seu dever, poderemos restabelecer a ordem e voltar a confiar no futuro. Jesus estabeleceu uma ética desafiadora que serve de bastão psicológico de segurança:

“Não fazer a outrem o que não gostaria que outrem lhe fizesse.”


Divaldo Franco escreve quinta-feira, quinzenalmente.

sábado, 29 de agosto de 2015

O SENTIDO DA VIDA É AMAR

Comentário(s)


O esforço de integração na Lei de Deus (Amar) é o caminho a ser vivido por todos. Enquanto formos movimentados pelas circunstâncias, e não Senhor delas, ficaremos como diz Pietro Ubaldi: "numa luta caótica em que o indivíduo está sozinho com SUAS forças, contra todos". Mas, como atingir o objetivo? Como integrar-se, fazendo com que nossa vontade esteja de acordo com a da Lei de Deus? 'Sua Voz' por meio de Ubaldi indica o caminho: Sendo bons e honestos. "O que mais importa nesta vida é tornarem-se bons e honestos os homens de todas as religiões." A meu ver, bondade e honestidade são as palavras chaves para a integração nessa Lei de Amor.

Eronildo

quinta-feira, 30 de julho de 2015

URGÊNCIA PARA COM OS NOSSOS DEVERES

Comentário(s)

Artigo de Divaldo Franco, publicado no jornal A tarde - 30/07/2015

O admirável educador e escritor Mário Sérgio Cortella narra que três itens são importantes para o comportamento saudável do cidadão: querer, poder e dever. Isto porque nem tudo que queremos realizar podemos, assim como nem tudo que podemos fazer devemos e nem tudo quanto devemos produzir queremos...

Num período de individualismo acentuado, no qual a predominância do ego tem prioridade, empurrando para o consumismo, as criaturas humanas não se dão conta que a decantada felicidade e realizações que aspiram podem ser de fácil conquista. Sem que sejam examinadas as possibilidades do querer em relação ao poder e ao dever, bem como de referência ao seu próximo, muitos projetos terminam por ser mais prejudiciais do que compensadores.

Necessário ter em mente a empatia, considerando a situação em que se encontra o outro, não lhe exigindo aquilo que não gostaremos que nos imponham. A capacidade de entender o nível de consciência das demais criaturas proporciona uma visão mais complexa para o comportamento saudável. Habituamo-nos a não cumprir com pequenos deveres que consideramos irrelevantes e terminamos por não considerar aqueles de alta responsabilidade como credores do nosso respeito e atenção, somente porque extrapolam o nosso egotismo. Como consequência, vemos as aberrações de todos os níveis tomarem conta da sociedade moderna, a ausência de lucidez de consciência predominar, mantendo o indivíduo engessado nos seus exclusivos interesses, não logrando alcançar a plenitude que independe do que se tem, mas sobretudo daquilo que se realiza interiormente.

Mulheres e homens vazios de ideais assumem o poder que não têm condições de exercer, somente porque querem destaque e atendimento das torpes ambições. Hoje, talvez mais do que nunca, torna-se indispensável que o nosso querer não exorbite as nossas possibilidades de poder manter os deveres éticos e morais em alto nível para a construção de um mundo melhor.

Divaldo Franco

O PRÍNCIPE E A RAPOSA

Comentário(s)


O PRÍNCIPE E A RAPOSA from Acervo Virtual on Vimeo.

O PEQUENO PRÍNCIPE - CAPÍTULO XXI

E foi então que apareceu a raposa.

__ Bom dia - disse a raposa.
__ Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, que , olhando a sua volta, nada viu.
__ Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...
__ Quem és tu? - perguntou o principezinho. __ Tu es bem bonita...
__ Sou uma raposa - disse a raposa.
__ Vem brincar comigo - propôs ele. __ Estou tão triste...
__ Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. __ Não me cativaram ainda.
__ Ah! desculpa - disse o principezinho.

Mas após refletir, acrescentou:

__ O que quer dizer "cativar"?
__ Tu não és daqui - disse a raposa. __ Que procuras?
__ Procuro homens - disse o pequeno príncipe. __ Que quer dizer "cativar"?
__ Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
__ Não - disse o príncipe. __ Eu procuro amigos. __ Que quer dizer "cativar"?
__ É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. __ Significa "criar laços"...
__ Criar laços?
__ Exatamente - disse a raposa. __ Tu não és nada para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E Não tenho necessidade de ti. E tu também não tem necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo...
__ Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. __ Existe uma flôr... eu creio que ela me cativou...
__ É possível - disse a raposa. __ Vê-se tanta coisa na Terra...
__ Oh! não foi na Terra - disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

__ Num outro planeta?
__ Sim.
__ Há caçadores nesse outro planeta?
__ Não.
__ Que bom! E galinhas?
__ Também não
__ Nada é perfeito - suspirou a raposa.
Mas a raposa retornou a seu raciocínio.
__ Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo... A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:
__ Por favor... cativa-me! -disse ela.
__ Eu até gostaria -disse o principezinho -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
__ A gente só conhece bem as coisas que cativou -disse a raposa. __ Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
__ O que é preciso fazer? -perguntou o pequeno príncipe.
__ É preciso ser paciente -respondeu a raposa. __ Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...

No dia seguinte o príncipe voltou.

__ Teria sido melhor se voltasses à mesma hora -disse a raposa. __ Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.
__ Que é um "ritual"? -perguntou o principezinho.
__ É uma coisa muito esquecida também -disse a raposa. __ É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adoram um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!

Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

__ Ah! Eu vou chorar.
__ A culpa é tua -disse o principezinho. __ Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
__ Quis -disse a raposa.
__ Mas tu vais chorar! -disse ele.
__ Vou - disse a raposa.

domingo, 24 de maio de 2015

DO EGO MENTAL AO EU ESPIRITUAL (6)

Comentário(s)

Por Huberto Rohden

Quando o homem transpõe a fronteira do seu ego mental e se transmentaliza rumo ao Eu espiritual, sem perder o contacto com a zona mental — então aparece o Homem Integral, o Homem Cósmico, o Homem Univérsico.


O ego mental não é destruído pelo Eu espiritual, é integrado nele.

Para compreender melhor esse processo, sirvamo-nos de uma ilustração tirada da matemática. Demos ao ego mental o número 10, e ao Eu espiritual o símbolo 100.

De dois modos podemos destruir o 10: ou tirando-lhe o sinal “1”, ou acrescentando-lhe o sinal “0”. No primeiro caso, em vez de 10, temos “0”, isto é, zero, anulação, destruição. No segundo caso temos 100. Este 100 praticamente anulou o 10, o 10 separado, isolado; não o destruiu por diminuição, mas por aumento; não o destruiu negativamente, mas positivamente; isto é, destruí-o construindo-o. No 100 permaneceu a essência ou alma do 10; desapareceu apenas a sua existência ou o seu corpo. O pequeno 10 foi integrado no grande 100; a parte foi completada pelo TODO.

Na cosmo-meditação acontece o segundo caso. Quando o ego mental se integra no Eu espiritual, acontece o que ocorre quando o menor (10) se integra no maior (100): não morre, mas vive mais intensamente; não morre para dentro da morte, mas morre para dentro da vida, de uma vida maior; desaparece a sua pseudo-vida transformada numa vida verdadeira.

É o que os Mestres espirituais chamam “egocídio”, morrer espontaneamente antes de ser morto compulsoriamente. O egocídio é uma espécie de morte metafísica voluntária.

Neste sentido escreve Paulo de Tarso: “Eu morro todos os dias, e é por isto que eu vivo; mas não sou eu que vivo, o Cristo é que vive em mim”.

No mesmo sentido disse o Cristo: “Se o grão de trigo não morrer, ficará estéril, mas se morrer produzirá muito fruto”.

É esta a cosmo-meditação praticada pelo Centro de Auto-realização Alvorada.

É esta a finalidade da cosmo-meditação: a integração do ego mental ilusório no Eu espiritual verdadeiro; ou seja, auto-realização pelo auto-conhecimento: a creação do Homem Integral, do Homem Cósmico, do Homem Univérsico.

Quem vive realmente a Filosofia Univérsica realiza em si o Homem Univérsico.

O Homem Univérsico é o Homem feliz.


EVOLUÇÃO RUMO AO HOMEM UNIVÉRSICO (5)

Comentário(s)

Por Huberto Rohden


Cada vez mais se acentua a evolução centrípeta da humanidade, em todos os setores: científico, filosófico e religioso. E esta evolução centrípeta tende a culminar na evolução do homem cósmico e crístico.

O homem se sente cada vez mais como um fator auto-agente, e cada vez menos como um simples fato alo-agido. O homem se sente cada vez mais como alguém, e cada vez menos como algo. Cada vez mais como sujeito central, e cada vez menos como um objeto periférico.

O homem de hoje tem nítida consciência do seu caráter de presente ativo e fator auto-determinante, superando o seu passado de fato alo-determinado.

O homem diz cada vez mais com o poeta inglês: “Eu sou o senhor do meu destino — eu sou o comandante da minha vida”.

Há tempo que a elite da humanidade ocidental superou a sua infância heterônoma, entrou na adolescência egônoma, e está despertando para amaturidade autônoma

Na infância, o homem é alo-determinado pelos pais e por outros fatores alheios ao seu ser.

Na adolescência, o homem tenta ser ego-determinante, pela sua personalidade intelectual.

Com a entrada na maturidade, o homem se torna auto-determinante, sob os auspícios da sua individualidade espiritual.

Da inconsciência da infância, através da semi-consciência da adolescência, sobe o homem às alturas da pleni-consciência da sua adultez definitiva.

Esse processo ascencional é, sobretudo, visível no setor filosófico-religioso.

Durante muitos séculos, o homem espiritualmente infantil estava convencido — ou melhor, persuadido — de que ele era mau em virtude de um fator alheio, negativo, de um tal diabo, satanás ou anticristo. Em grande parte a humanidade de hoje ainda acredita piamente que alguém fez o homem pecador, à sua própria revelia, que ele é essencialmente mau, negativo, pecador; que todo homem nasce e foi concebido em pecado, graças a um fator alheio à sua própria consciência e vontade. Todas as igrejas cristãs do ocidente professam essa ideologia de maldade heterônoma: o homem foi feito mau por alguém, herdou uma maldade inconscientemente. Os próprios discípulos do Cristo perguntaram ao Mestre se o cego de nascença herdara a causa da cegueira de seus ante-passados pecadores ou da sua própria pré-existência pecadora; queriam saber se o cego recebera o mal da cegueira de malfeitores alheios ou do seu próprio malfeitor numa encarnação anterior.

O Nazareno, porém, nega ambas as alternativas sugeridas e passa para uma terceira solução, que até hoje é um enigma para muitos. O certo é que o Cristo nega a alo-maldade para explicar o mal desse sofrimento.

Se houvesse a possibilidade de uma alo-maldade herdade pelo homem, deveria haver também a possibilidade de uma alo-bondade que o homem pudesse receber de um fator alheio; se alguém me fez mau e pecador, é lógico que alguém me possa fazer bom e santo; se um tal Anticristo me pode perder, um Cristo me deve poder salvar. E, como todas as igrejas cristãs aceitaram o primeiro, não podiam deixar de aceitar o segundo: alo-redenção neutralizando alo-perdição.

O Cristo, felizmente, nada sabe de alo-perdição nem de alo-redenção. Para ele, é certo que o homem colherá aquilo que ele mesmo ou a humanidade semearam. Para o maior gênio espiritual da humanidade não há alo-perdição nem alo-redenção, mas tão somente ego-perdição eauto-redenção.

Nisto se revela a mais alta lógica e racionalidade do Cristo — e também a maior apoteose do Livre arbítrio do homem. O Cristo poderia dizer com o poeta-filósofo: O homem é o senhor do seu destino, negativo e positivo; o homem é o comandante da sua vida de pecador e de justo.


***

Quando a humanidade medieval, saiu, em parte, da sua longa infância espiritual, caracterizada pela idéia da heteronomia do mal e do bem, de alo-perdição e alo-redenção — o homem da Renascença despertou, parcialmente, para a consciência do seu poder autônomo; compreendeu que ele mesmo, e não alguém fora dele, era o autor da sua maldade e da sua bondade, do seu ser-mau e do seu ser-bom. Mas, como o homem da Renascença, depois de deixar a sua infância medieval, não era ainda um homem plenamente adulto, e sim apenas um adolescente semi-adulto, esse homem descobriu apenas uma parte da sua natureza hominal, descobriu a personalidade do seu ego-mental, mas ainda não aindividualidade do seu Eu-espiritual.

E o homem-ego renascentista apelou para o seu ego-personal para se redimir das suas maldades e dos seus males. Há cerca de quatro séculos que o homem da Renascença nos prometeu que, pelo poder da inteligência do seu ego, ia crear o céu sobre a terra; prometeu, e em parte continua a crer, que a ciência e a técnica, filhas da inteligência, possam abolir as maldades e os males; o ego, segundo ele, tem o poder mágico de fechar cadeias e penitenciárias, hospitais e hospícios, contanto que abra bastantes escolas e laboratórios.

Isto nos foi prometido há séculos, em nome de Sua Majestade a ciência e técnica, filhas da inteligência do homem-ego.

Mas quatro séculos de promessas de céu na terra não cumpriram a sua palavra, e sobretudo a humanidade do século 20, que passou por duas guerras mundiais, e está em vésperas de um possível conflagração mundial, não pode mais crer no poder redentor da civilização e da cultura creadas pelo ego.

O grande erro da Renascença, que está agonizante, foi a confusão entre o fato ego e o fator Eu — ou melhor, foi o deplorável desconhecimento ou menosprezo do Eu espiritual do homem — e essa ignorância ou desprezo continuam até nossos dias.

Hoje em dia, finalmente, a humanidade-elite está começando a compreender, ou talvez a vislumbrar, que o ego é fator perdição, mas não é o fator de redenção. E muitos estão começando a compreender que, para crearmos o homem integral, realmente remido, temos de acrescentar ao negativo do ego o fator positivo do Eu. Em nosso Universo, tudo é bipolar, e nada funciona unipolarmente.

Surge agora o magno problema: como despertar no homem o fator Eu, para fazer com o ego a complementação do homem integral.

O fator ego, quando isolado, é perdição funesta, porque adultera a sua função de servidor e se arroga a função de senhor do homem.

A sabedoria multimilenar da Bhagavad Gita de Krishna diz: “O ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor”.

E a sabedoria quase bimilenar do Evangelho do Cristo dá ordem ao ego anticrístico para se pôr na retaguarda do Eu crístico como servidor, e não na vanguarda como senhor: “Só Deus adorarás e só ele servirás”.

O homem integral não é um ego sem Eu, nem um Eu sem ego — mas sim um senhor na vanguarda e um servidor na retaguarda.

No universo físico não há substituição de um pólo pelo outro. E como poderia o Universo metafísico ser diferente? Todo o cosmos sideral e hominal é uma grandiosa síntese de pólos complementares perfeitamente equilibrados e harmoniosos.

O homem integral é o homem cósmico, o homem univérsico, o homem crístico.

A humanidade, através de muitas lutas, está começando a vislumbrar esta integração da natureza humana: a auto-redenção pelo Eu divino compensando a ego-perdição proveniente do ego humano.

* * *

A Filosofia Univérsica quando plenamente conscientizada e integralmente vivenciada, conduz infalivelmente à auto-realização, creando o Homem Integral, o Homem Cósmico, o Homem Univérsico, o Homem Crístico.

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O PROBLEMA DA FELICIDADE HUMANA (4)

Comentário(s)

Por Huberto Rohden

Os maiores médicos e psiquiatras do mundo concedem e confessam que o grosso da humanidade hodierna é neurótica, frustrada ou esquizofrênica. O Dr. Victor Frankl, diretor da POLICLÍNICA NEUROLÓGICA da Universidade de Viena, em diversos livros, traz estatísticas pavorosas sobre essa calamidade do homem civilizado dos nossos dias. E dá também o diagnóstico do mal: a falta de uma consciência de unidade. O Homem moderno, hipertrofiado na sua diversidade (ego) e atrofiado na sua unidade (Eu) — é a conseqüência dessa descosmificação do homem, que não podia deixar de acabar num caos, em que a dispersividade derrotou a centralidade.

Frustrar é a palavra latina para despedaçar, fragmentar, desintegrar. O homem frustrado sente-se realmente como que desintegrado interiormente, o que produz nele um senso de profunda infelicidade. Em última análise, toda felicidade provém de uma consciência de coesão e integridade. O homem é infeliz porque perdeu a consciência da sua inteireza e unidade; pode ser uma personalidade, uma persona( (máscara), mas deixou de ser uma individualidade, um ser indiviso em si mesmo. Unidade, integridade, felicidade, são sinônimos.

Muitos frustrados acabam em esquizofrenia. A palavra esquizofrênico, quer dizer, em grego, mente partida. O homem mentalmente fragmentado é um homem desunido, descosmificado.

Onde não há realização existencial, há necessariamente uma frustração existencial, que é o motivo da infelicidade de milhares de homens.

O homem que deixou de ser cosmos pela unidade acaba, cedo ou tarde, num caos pela desunião consigo mesmo. As leis que regem o Universo sideral regem também o Universo hominal.

Os Mestres da vida, além de fazerem o diagnóstico da enfermidade, indicam também a sua cura. Victor Frankl cura os doentes frustrados comlogoterapia, mostrando-lhes o caminho para o estabelecerem a sua integridade existencial, despertando a consciência do seu Lógos interno, o seu Eu, a sua alma. E os que conseguem fazer gravitar os planetas dos seus egos em torno do sol do seu Eu, estabelecem a harmonia e felicidade da sua existência.

Krishna, na Bhagavad Gita, afirma que o ego é o pior inimigo do Eu, mas que o Eu é o maior amigo do ego.

O próprio Einstein, à luz da sua matemática metafísica, mostra que do caminho dos fatos (ego) não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores (Eu).

Que é tudo isto senão Filosofia Univérsica, expressa de outra forma? O homem, para ter harmonia e felicidade, deve ter um centro de gravitação fixo e imutável, deve afirmar a soberania da sua substância divina sobre todas as tiranias das circunstâncias humanas — deve ser Universificado.

Em quase todos os meus livros tenho frisado esse caráter cósmico da vida humana, sobretudo nos mais recentes: “Educação do Homem Integral”, “Entre Dois Mundos”, “Einstein, o Enigma da Matemática”, “Rumo à Consciência Cósmica”, Saúde e Felicidade pela Cosmo-meditação”, “Sabedora das Parábolas”, etc.

Nada disto, porém, é possível, se o homem passar às 24 horas do dia na zona da dispersividade centrífuga do ego, e não der uma hora sequer à concentração centrípeta do Eu. As leis cósmicas são inexoráveis e imutáveis, tanto no mundo sideral como no mundo hominal. Obedecer a essas leis da natureza humana é harmonia e felicidade — desobedecer-lhes é caos e infelicidade.

Não somos advogados da passividade contemplativa de certos orientais — mas defensores da harmonia e do equilíbrio entre atividade e passividade, entre introversão e extroversão, entre concentração e expansão, entre implosão e explosão, que são o característicos de todos os setores da natureza. Enquanto o homem não se “naturalizar” ou cosmificar, será sempre frustrado e infeliz. Uma hora, ou meia hora, de profundacosmo-meditação pode dar ao homem o devido equilíbrio para o resto do dia.

Não recomendamos a meditação em forma de pensamentos analíticos, que é ineficiente, mas recomendamos a profunda sintonização com a alma do Universo, o esvaziamento de toda a ego-consciência, para que a plenitude da cosmo-consciência possa plenificar com as águas vivas da fonte divina a vacuidade dos canais humanos. Enquanto a ego-plenitude (egocentrismo, egolatria) funciona, a Teo-plenitude não pode funcionar. É lei cósmica: plenitude só enche vacuidade, ou, na linguagem dos livros sacros, “Deus resiste aos soberbos (ego-plenos), mas dá sua graça aos humildes (ego-vácuos)”.

Durante a cosmo-meditação deve o homem esvaziar-se de todos os conteúdos do seu ego-humano — sentimentos, pensamentos e desejos — mantendo, porém, plenamente vigil a sua consciência espiritual; deve manter 100% de Teo-consciência (Eu) e reduzir a ego-consciência a 0%.

O fim da Filosofia Univérsica é, pois, estabelecer no homem a mesma harmonia que existe no Universo, com a diferença de que no homem esta harmonia é voluntária e livre, enquanto no cosmos ela é automática.

Esta harmonia livremente estabelecida pode dar ao homem uma felicidade consciente infinitamente maior do que toda a harmonia, beleza e felicidade do Universo extra-hominal.

O esforço inicial dessa harmonização vale a pena pela subseqüente felicidade da vida humana.

No princípio necessita o principiante de períodos determinados em lugar certo para essa integração; mais tarde pode ele manter a concentração interior no meio de todas as dispersões exteriores, pode unir a sua implosão mística com todas as explosões dinâmicas; pode viver simultaneamente no Deus do mundo e nos mundos de Deus.

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A BIPOLARIDADE DO MUNDO E DO HOMEM (3)

Comentário(s)

Por Huberto Rohden

Átomos e astros se movem em elipses bicêntricas — não existe no Universo um único círculo unicêntrico.

A eletricidade só se manifesta como luz, calor e força, graças à sua bipolaridade positiva e negativa.

Toda a vida superior da terra está baseada na bipolaridade dos elementos masculino e feminino.

Esses dois pólos da natureza são rigorosamente equilibrados e funcionam em perfeita harmonia.

De modo análogo, é o Universo hominal governado pela bipolaridade da natureza humana, que a Filosofia e Psicologia modernas denominam oEu e o Ego.

A Filosofia multimilenar do oriente chama o Eu Atman e o Ego Aham.

Os livros sacros do cristianismo, usam os termos Alma, ou espírito divino, para designar o Eu central do homem, e a expressão corpo ou mundopara significar as periferias da natureza humana.

“Que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro se chegar a sofrer prejuízo em sua própria alma” (o Cristo, Eu).

“Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória, se te prostrares em terra e me adorares” (o Anticristo, Ego).

O Eu corresponde ao Uni do Universo, e o ego ao elemento Verso.

O homem perfeito e integralmente realizado estabeleceu perfeito equilíbrio entre o seu Uno (Eu) e seu Verso (ego).

O homem profano só cultiva o seu ego, atrofiando o Eu.

O místico tenta realizar somente o Eu sem o ego.

O homem cósmico, univérsico, porém, realiza o seu Eu através do seu ego, porque sabe que o Eu ou Uno é Fonte, e o seu ego ou Verso é canal, pelo qual as águas vivas da nascente fluem e beneficiam a sua vida.

A ciência tem por objeto as leis da natureza externa.

A sapiência ou filosofia visa ao conhecimento e à realização do homem interno.

A ciência é cosmo-cêntrica.

A filosofia é ântropo-cêntrica.

O aperfeiçoamento do Eu ou alma humana é o fim supremo da vida — e essa realização se faz através do ego, cujos elementos são o corpo, a mente e as emoções.

Sendo que a evolução do homem começa pela periferia e vai rumo ao centro, os grandes Mestres da humanidade insistem, sobretudo no desenvolvimento do Eu ou da alma humana, a fim de evitarem a hipertrofia unilateral do ego e a atrofia do Eu.

O homem perfeito é o homem cósmico ou universificado, que estabeleceu perfeito equilíbrio e harmonia entre os dois pólos interno e externo. É este o fim supremo de toda educação verdadeira.

O educador deve eduzir de dentro do educando, e devolver o Eu dele, a fim de equilibrá-lo com seu ego.

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UNIDADE NA DIVERSIDADE (2)

Comentário(s)

sábado, 23 de maio de 2015

A ALVORADA DA FILOSOFIA UNIVÉRSICA E DO HOMEM CÓSMICO (1)

Comentário(s)

Por Huberto Rohden

A Filosofia Univérsica, ou Cósmica, é a filosofia segundo o Universo, ou cosmos.

Não trata apenas da amplitude extensiva da Filosofia Universal, mas da profundidade intensiva que caracteriza o próprio Universo. Não toma por ponto de partida e termo de referência alguma pessoa — Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Spinoza, Kant, Descartes, Hegel, Bérgson — nem se guia por uma determinada escola do pensamento — empirismo, racionalismo, idealismo — mas reflete a própria índole da Constituição do Universo, isto é, a mais intensa unidade na mais extensa diversidade — o uni-verso em toda a sua genuinidade e integridade.

A filosofia Universica aceita, naturalmente, como contribuintes, todas as correntes válidas do pensamento humano, mas não navega em nenhum desses afluentes do grande Amazonas da Filosofia Perene, e sim na grande síntese do próprio Cosmos.

O Universo Integral — como causa e efeito, como essência e existência, como alma e corpo, como fonte e canais — é o único modelo válido para o pensamento e a vida do homem. O homem integral e perfeito é plasmado à imagem e semelhança dos Cosmos, uno em seu ser, múltiplo em seu agir. O homem bom é o homem cósmico, o homem mau é o homem acósmico ou anticósmico. 

uno do Universo é o Infinito — o verso (vertido, derramado) são os Finitos. O Uno e único, diriam os orientais, é Brahman, que se derrama ou pluraliza no múltiplo Maya.

Nem o uno do Infinito, nem os múltiplos dos Finitos, quando tomados disjuntivamente, são o grande Todo do Universo; somente o uno e osmúltiplos — a fonte e os canais — quando tomados conjuntivamente, é que perfazem o Universo em toda a sua genuinidade e integridade, O Infinito da essência se revela sem cessar nos Finitos das existências. A Transcendência do Deus do mundo aparece na Imanência dos mundos de Deus. O Universo é essência-existência, causa-efeito, alma-corpo, ser-agir, infinito-finito, eterno-temporário, imanifesto-manifesto, absoluto-relativo.

A alma do Deus do mundo se revela nos corpos dos mundos de Deus.

O homem, esse microcosmo, reflexo do macrocosmo, não pode atingir diretamente a longínqua transcendência do Uno-Infinito da Divindade — mas pode atingir a propínqua imanência dos Diversos-Finitos de Deus, que transparecem em todas as coisas do mundo. Deus é a Divindade em sua imanência infinita. A Divindade, por assim dizer, se finitiza em Deus. A Divindade “é” — Deus “existe”. Ninguém pode conhecer a Divindade-ente — só pode conhecer algo do Deus-existente. O grande Além-transcendente ecoa nos pequenos Aquéns-imanentes.


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A palavra grega kósmos quer dizer belo (cf.cosmético).

A palavra latina mundus, sinônimo de Universo, quer dizer puro (cujo contrário é imundo).

O Universo é, pois, belo e puro, quando tomado em sua genuína totalidade.

Quanto mais o ánthropos (homem) se assemelha ao kósmos, tanto mais belo e puro é ele. Quando o homem se distancia do kósmos ou mundus, deixa de ser belo e puro. Deve, pois, o homem cosmificar-se ou mundificar-se para ser integralmente ele mesmo, belo e puro, 100% ánthropospara ser imagem fiel do kósmos — deve ser homem cósmico, homem univérsico.


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Segue-se que o homem profano, não-cosmificado, é feio e impuro. Conhece apenas a parte efeitual, o corpo, a periferia do Universo, os finitos, os diversos, acessíveis aos sentidos e ao intelecto.

O homem místico avançou um grande passo; é semi-belo e semi-puro; refugiou-se ao uno central do Universo, a Deus, à alma, ao Infinito, e nele se isolou beatificamente. De tanto amor à unidade, odeia todas as diversidades; fugiu do caos das periferias e caiu na monotonia do centro.

O homem cósmico, depois de mergulhar totalmente no eterno uno do cosmos e nele se consolidar definitivamente pela experiência “eu e o Infinito somos um”, realiza um movimento reversivo rumo às periferias, sem deixar o centro; ramifica-se através de todos os diversos do mundo, penetrando da intensa luz central da sua consciência unitária todas as trevas e penumbras das diversidades periféricas, tornando transparentes pelo fulgor do seu ser todas as opacidades do seu agir. De dentro do seu silencioso nirvana(1) central domina o homem cósmico todos os ruidosos sansaras periféricos do mundo em derredor.

O homem univérsico vive a causa una em todos os efeitos múltiplos, faz transbordar a sua experiência mística em vivência ética, infinitizando todas as finitudes, lucificando todas as trevas, vivificando todas as mortalidades.

Em virtude dessa sua experiência de centralidade, tem o homem cósmico o poder de exprimir em forma concreta o grande abstrato da Realidade Infinita; vê o Transcendente do Infinito como Imanente em todos os Finitos; enxerga o único além nos múltiplos do Aquém, o Deus dos mundos nos mundos da Divindade.
Por isto, é o homem univérsico ao mesmo tempo filósofo e artista, porque visualiza o Infinito em todos os Finitos — que é próprio da vidência filosófica — e sabe revestir de forma finita, concreta-individual, o sem-forma do Abstrato-Universal — que caracteriza a vivência artística.

Para ele, a Verdade da Filosofia se revela na Beleza da Poesia, se entendermos por “poesia” a arte em geral. (2)

Quando Mahatma Gandhi disse que “a verdade é dura como diamante e delicada como a flor de pessegueiro”, teve ele a intuição do Universo e do Homem como sendo o uno da Verdade (dureza do diamante) revelado como o diverso da Beleza (delicadeza de flor de pessegueiro).

Toda vez que a Verdade culmina em Beleza, o “Verbo se faz carne”, a filosofia nasce como poesia.

O músico, o escultor, o pintor, o poeta, o ético — são homens capazes de dar forma concreta à Realidade abstrata. A intuição da Realidade universal é própria de todos os filósofos — mas a expressão em forma concreta é peculiar aos artistas. O homem cósmico é necessariamente um filósofo-artista, um homem integral.

O pintor usa, como meio de expressão da sua inspiração, tinta e tela.

O escultor serve-se de um bloco de mármore ou granito, ou modela o seu ideal em massa plasmável.

O músico revela a sua visão abstrata na vibração concreta de sons aéreos.

O poeta concretiza a substância mental do universo em roupagens de palavras estéticas.

O místico revela a sua intuição divina em atos de ética (3) humana, fazendo transbordar a plenitude do “primeiro mandamento” nas torrentes benéficas do “segundo mandamento”, fazendo o bem aos outros por ser bom ele mesmo.

Todos eles são homens cósmicos, filósofos-artistas, que concretizam o Universal da Verdade no Individual da Beleza.

Do consórcio da Verdade e da Beleza, do conhecer e do agir, nasce o Homem Cósmico, o “filho do homem”, em toda a sua plenitude, “cheio de graça e de verdade”.


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É chegado o tempo para construirmos a filosofia sobre esse fundamento univérsico, liberta da estreiteza de pessoas e de escolas, filosofia como reflexo e eco do próprio Universo.

É o que tenho tentado fazer em algumas dezenas de livros — é o que tento fazer, em síntese, nas páginas deste livro (4).

Os métodos que visa esse ideal são, por vezes, complicados e laboriosos — mas a meta é simples e gloriosa.

Não perca, pois, o leitor a visão da meta longínqua que demandamos em face das setas que colocamos nas encruzilhadas da nossa jornada. Sirva-se destas como de diretrizes seguras à beira da estrada — mas tenha o bom-senso de abandonar as setas a fim de atingir a meta que elas indicam. Quem se agarra à seta na encruzilhada falha o sentido dela. O sentido da flecha é ser abandonada; a sua finalidade é transcendente, e não imanente; não é um espelho refletor, mas uma janela aberta que dá visão para horizontes além. A missão da seta ultrapassa o seu corpo presente e se realiza na alma ausente, a meta, que jaz em região longínqua, para além da ponta da seta indicadora.

Assim são os métodos visando à meta.


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A verdadeira filosofia visa a dar ao homem plena autonomia e autocracia, em todos os setores da vida. Procura isentá-lo de todas asheteronomias e heterocracias, as quais, por algum tempo, são indispensáveis como muletas provisórias, mas que serão abolidas quando o homem convalescer das fraquezas do seu pequeno ego telúrico e atingir a saúde do seu grande Eu cósmico.

Esse Eu cósmico não é algum elemento adventício, alheio à natureza humana, mas é o íntimo quê, o reduto central do homem, o seu genuíno e autêntico EU SOU. O que o homem conhece, ou julga conhecer, conscientemente — o seu ego físico-mental-emocional, a sua persona ou máscara — são apenas as periferias externas da sua natureza; o seu centro interno jaz, ainda desconhecido ou mal suspeitado, nas profundezas do seu Inconsciente, que é o Infinito, o Absoluto.

Quando esse Inconsciente do Eu acordar e permear todos os setores do ego consciente, integrando-os no seu domínio, então nasce o Homem Cósmico, que está para o Homem Telúrico assim como a planta em plena evolução está para a semente de que brotou.

O Homem Cósmico é explicitamente o que o Homem Telúrico é implicitamente.

A semente, para dar origem à planta, morre como semente — mas não morre como vida; e, para que a vida latente possa brotar em vida acordada, deve a estreiteza da semente ceder à largueza da planta.

Toda iniciação, toda auto-realização, supões algo parecido com uma destruição, uma morte, uma extinção, um aniquilamento. Quem não está disposto a morrer espontaneamente não pode viver gloriosamente. Nesse querer-morrer espontâneo está todo o segredo do poder-viverplenamente. Morrer, ou antes, ser morto compulsoriamente — por um acidente, uma doença ou uma velhice — não resolve o problema; é necessário que o homem esteja disposto a morrer espontaneamente antes de ser morto compulsoriamente. Só assim se realiza ele plenamente, e para sempre.

É o misterioso “Stirb und werde!” de Goethe.

É o último segredo do Evangelho do Cristo e da Bhagavad Gita do Oriente. Morrer relativamente — para viver absolutamente!...

Quem puder compreendê-lo compreenda-o!...

CONTINUAÇÃO:

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