ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

Para os interessados em Filosofia, Ciência, Religião, Espiritismo e afins, o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi é um blog sem fins lucrativos que disponibiliza uma excelente coletânea de livros, filmes, palestras em áudios e vídeos para o enriquecimento intelectual e moral dos aprendizes sinceros. Todos disponíveis para downloads gratuitos. Cursos, por exemplo, dos professores Huberto Rohden e Pietro Ubaldi estão transcritos para uma melhor absorção de suas exposições filosóficas pois, para todo estudante de boa vontade, são fontes vivas para o esclarecimento e aprofundamento integral. Oásis seguro para uma compreensão universal e imparcial! Não deixe de conhecer, ler, escutar, curtir, e compartilhar conosco suas observações. Bom Estudo!


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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

MENSAGEM DO PERDÃO

Comentário(s)


Este, é um dos textos mais belos que já li. Por isso mesmo, compartilho com vocês, meus amigos! Por sua beleza e profundidade, não deveria ser lido após um lufa-lufa de festa, mas, "ruminado", como diria o pensador Huberto Rohden. Assim, que seja lido com calma e com a alma! É um texto longo e leve, que tem uma estranha magia de se infiltrar de forma especial na mente e no coração de cada um. Valerá a pena reservar um tempo e ler até o fim. Boa leitura, e um feliz natal para todos:

***

Filho meu, minha voz não despreza tuas pequeninas coisas de cada dia, mas delas se eleva para as grandes coisas de todos os tempos.

Ama o trabalho, inclusive o trabalho material.

Coisa elevada e santa, o trabalho, presentemente, foi transformado em febre. De que não se tem abusado entre vós? Que coisa ainda não foi desvirtuada pelo homem? Em tudo vos excedeis e, por isso, ignorais o labor equilibrado, que tão elevado conteúdo moral encerra: se busca o necessário ao corpo, ao mesmo tempo contenta o espírito. E, no entanto, transformastes esse dom divino, com o qual poderíeis plasmar o mundo à vossa imagem, em tormento insaciável de posse. Substituístes a beleza do ato criador, completo em si mesmo, pela cobiça que nunca descansa. Quantos esforços empregados para envenenar-vos a vida!

Ama o trabalho, mas com espírito novo; ama-o, não pelo que ele é propriamente, porém, como um ato de adoração a Deus, como manifestação de tua alma, nunca como febre de riqueza ou domínio. Não prendas tua alma aos seus resultados, que pertencem à matéria e, portanto, sujeitos à caducidade; ama, porém, o ato, somente o ato de trabalhar. Não seja a posse, o triunfo, a tua recompensa, mas sim, a satisfação íntima de haveres cumprido, cada dia, o teu dever, colaborando assim no funcionamento do grande organismo coletivo.

Esta é a única recompensa verdadeira, indestrutível, solidamente tua; as demais depressa se dissipam e se perdem. Ainda que nenhum resultado positivo obtivesses, uma recompensa ficaria contigo para sempre: a paz do coração, paz que o mundo perdeu por prender-se às coisas concretas, julgando-as seguras.

Desapega-te de tudo, inclusive do fruto de teu trabalho, se queres entrar na posse da paz. Ocupa-te das coisas da Terra, mas apenas o suficiente para aprenderes a desapegar-te delas.

Toda construção deve localizar-se no teu espírito, deve ser construção de qualidades e disposições da personalidade, e não edificação na matéria, que é um remoinho de areia que nenhum sinal pode conservar.

Tudo o que quiserdes vos seja unido eternamente deve ser unido por qualidades e merecimento, deve ser enlaçado pela força sutil da Lei, por vós movimentada, nunca por vossa força exterior, ou por vínculos das convenções sociais ou ainda por liames da matéria. Só nesse sentido se pode realmente possuir: de outro modo, não obtereis senão a tristeza depois da ilusão e a consciência posterior da inutilidade de vossos esforços.

Outro grande problema, que voz diz respeito, é o amor. Elevai-vos em amor, como deveis elevar-vos em todas as coisas, se quereis encontrar profundas alegrias. Martelai vossa alma, num íntimo trabalho de cada dia, que vos leva à conquista de amores sempre mais extensos, únicos que têm a resistência das coisas terrenas.

Sabes que o amor se eleva do humano ao divino e que nessa ascensão ele não se destrói, mas se fortalece, aperfeiçoando e multiplicando-se. Segue-me e, então, poderás entoar o cântico do amor:

"Meu corpo tem fome e eu canto; meu corpo sofre e eu canto; minha vida é deserta e eu canto; não há carícias para mim, porém todas as criaturas vêm à mim. Meu irmão de mim se aproxima como inimigo, para prejudicar-me, e eu lhe abro os braços em sinal de amor. Eu vos bendigo a todos vós que me trazei dor, porque com ela me trazeis a purificação, que me abre as portas do Céu. Minha dor é um cântico que me faz subir. louvado sejas, ó Senhor, pelo que é a maior maravilha da vida; que as pobres intenções malignas de meu próximo sejam para mim a Tua Bênção ".

Estes meus ensinamentos são dirigidos mais à vossa intuição que ao vosso intelecto. Tem um sentido mais amplo o que vos tenho dito: a felicidade dos outros é vossa única felicidade, verdadeira e firme. Significa extinção dos egoísmos num amplexo universal de altruísmo. Tudo isso pode ser de fácil compreensão, mas é difícil senti-lo. Não procuro vossa razão que discute, antes busco essa visão interior que em vós opera, que sente por imediata concepção, que enxerga com absoluta clareza e lealmente se entrega à ação.

Peço-vos o ímpeto que somente nasce do calor da fé e que nunca vem pelos tortuosos caminhos do raciocínio. Não desejo erudição, pesquisas e vitórias do intelecto; quero, antes, que vejais, num ato sintético de fé e que imediatamente vivais vossa visão, e personifiqueis a idéia avistada, e resplendais vós mesmos, em seu esplendor. Somente então a idéia viverá na Terra e personificado em vós existirá um momento da concepção divina.

Não estou apelando para vossos conhecimentos nem para vosso intelecto, que não são patrimônios de todos, mas venho até junto de vós por caminhos inabituais e em vós penetro como um raio que desce às profundezas e dissipa as trevas, que cintila e vos arrasta através de novas vias, com forças novas, que levantarão o mundo como num turbilhão.

Também falarei, para ser entendido, a linguagem fria e cortante da razão e da ciência, porém usarei, acima de tudo, da linguagem ardente e direta da fé. Minha palavra será ora o brado de comando, ora a ternura de um beijo de mãe.

Para ser por todos compreendida, minha palavra percorrerá os extremos de sabedoria e de singeleza, de força e de bondade. Será pranto de amargura e remoinho de paixão; será nostálgico lamento, suspirando por uma grande pátria distante, como será também ímpeto de ação para até ela conduzir-vos. Minha palavra rolará, por vezes, como regato susurrante em verde campina, a trazer-vos o frescor das coisas puras; outras vezes trovejará com os elementos enfurecidos na fúria da tempestade.

Ao seio de cada alma quero descer e adaptar-me a fim de ser compreendido; para cada uma devo encontrar uma palavra que a penetre no mais íntimo, que a abale, que a inflame e a arroje para o alto, onde eu estou, que até junto de mim a conduza, onde eu a espero.

Almas, almas eu peço. para conquistá-las vim das profundezas do infinito, onde não existe espaço nem tempo, vim oferecer-vos meu abraço, vim de novo dizer-vos a palavra da ressurreição, para elevar-vos até mim, para indicar-vos um caminho mais elevado onde encontrareis as alegrias puras.

Vós vos identificastes de tal modo com a vida física que já não podeis sentir senão uma vida limitada como a do vosso corpo. Pobre vida, rápida e cheia de incertezas, enclausurada nas limitações de vossos pobres sentidos. Pobre vida, encerrada num ataúde, na sepultura que é o corpo a que tanto vos agarrais. Minha voz encerrará todos os extremos de vossas diferentes psicologias. Escutai-me!

Não vos ensino a gozar das coisas terrenas, porque são ilusórias; indico-vos as alegrias do céu, porque somente estas são verdadeiras. Minha verdade não é a fácil verdade do mundo; não vos prometo alegrias sem esforços, mas minha promessa não vos ilude. Meu caminho é caminho de dor, porém, eu vos digo que somente ele vos conduzirá à liberação e à redenção. Minha estrada é de luta e de espinhos, mas vos fará ressurgir em mim, que vos saciarei para sempre. Não vos digo: " Gozai , gozai ", como o mundo vos fala. O mundo, porém, vos engana, eu não vos enganaria nunca.
Minha verdade é áspera e nua, contudo é a verdade. Peço o vosso esforço, mas dou a felicidade. Digo-vos: " Sofrei ", mas junto de vós estarei no momento da dor; com piedade maternal, velarei por vós; medindo todo o vosso esforço, proporcionarei as provas segundo vossa capacidade; finalmente, farei o que o mundo não faz: enxugarei vossas lágrimas. 

O mundo parece espargir rosas, mas na verdade distribui espinhos; eu vos ofereço espinhos, porém vos ajudarei a colher rosas.

Segui-me, que o exemplo já vos dei. Levantai-vos, ó homens: é chegado o momento. Não venho para trazer guerra, mas, sim, paz. Não venho trazer dissensão às vossas idéias nem às vossas crenças: venho fecundá-las com meu espírito, unificá-las na minha luz.

Não venho para destruir e sim para edificar. O que é inútil morrerá por si mesmo, sem que eu vos dê exemplo de agressividade.

Desejaríeis sempre agredir, até mesmo em nome de Deus. Com que grande avidez ansiais por discussões e lutas contra vossos próprios irmãos, prontos a profanar, assim, minha pura palavra de bondade. Repito-vos: " Amai-vos uns aos outros ". Não discutais, mas dai o exemplo de virtude na dor, amai vosso próximo; aprendei a estar sempre prontos para prestar um auxílio, em qualquer parte onde haja um padecimento a aliviar, uma carícia a oferecer. Vossas eruditas investigações tornaram tão ásperas vossas almas que não vos permitiram avançar um só passo para o Céu.

Não venho para agredir, mas para ajudar; não para dividir, mas unir; não demolir, mas edificar. Minha palavra busca a bondade, antes que a sabedoria. Minha voz a todos se dirige. Ela é ampla como o universo, solene como o infinito. Descerá aos vossos corações, às vezes com a doçura de um carinho, outras vezes arrastadora como o tufão.

* * *

Do alto e de muito longe venho até vós. Não podeis perceber quão longo é o caminho que nós, puro pensamento, devemos percorrer a fim de superar a imensa distância espiritual que nos separa de vós, imersos na terra lodosa. Vossas distâncias psicológicas são maiores e mais difíceis de serem vencidas que as distâncias de espaço e tempo. Por isso, às vezes, chego fatigado. Minha fadiga, porém, não é cansaço físico: provém apenas do desalento que me nasce de vossa incompreensão. E, no entanto, minha palavra tem a doçura da eternidade e do infinito. Tem a tonalidade tão ampla como jamais possuiu a voz humana: deveríeis, por isso, reconhecer-me.

Venho a vós cheio de amor e de bondade, e me repelis. Eu, que vejo os limites da história de vosso planeta; eu, que num rápido olhar, vejo sem esforço toda a laboriosa ascensão desta humanidade cujo pai sou; eu me faço pequenino hoje, limito-me e me encerro num átimo de vosso momento histórico para que possais compreender-me.

Se vos falasse com minha voz potente, não me entenderíeis. Meu olhar contempla a Terra, quando o homem ainda não a habitava e também a vê no futuro distante, morta, a navegar no espaço como um ataúde de todas as vossas grandezas. Vejo vosso sol moribundo, depois morto e em seguida chamado a uma nova vida. Vejo, além desse átomo que é o vosso planeta, uma poeira de astros a revolutearem sem cessar pelos espaços infinitos, e todos eles transportando consigo humanidades que lutam, sofrem, vencem e se elevam. tudo vejo, tudo leio nos vossos corações como nos corações de todos os seres.

Além do vosso universo físico, vejo um maior universo moral, onde as almas, na sua laboriosa ascensão, cumprindo seu diuturno esforço de purificação para o Alto, cantam o mais glorioso hino à Divindade. Esplendorosa luz existe no centro moral do universo, luz que atrai todos os seres por uma força de gravitação moral mais poderosa do que aquela que mantém associadas no espaço as grandes massas planetárias e estelares. tudo vejo, mas nada falo para não vos perturbar. tudo vejo e minha mão possante firma o destino dos mundos. Poderia mudar o curso dos astros, mas nós somos lei, ordem e equilíbrio e não aprovamos violações. Empunho o destino dos povos e, no entanto, venho humildemente até vós, para entre vós colher o perfume que se desprenda de uma alma simples. Esse é meu único conforto, quando desço ao vosso mundo, às camadas profundas e obscuras de matéria densa, formadas de coisas baixas e repugnantes. Aquele perfume parece perder-se na vossa atmosfera carregada de emanações perniciosas, como que vencido pelas forças envolventes do mal. Eu o percebo, no entanto, elegendo-o, e recolho como se guarda uma jóia humilde e gentil, desabrochada na lama, e a guardo em meu coração, onde ela repousará. É o único carinho que encontro em vosso mundo, o único hino, puro e singelo, que me faz descansar. Como a criancinha repousa aos cânticos de sua mãe, que lhe parecem os mais belos, assim me acalento, invadido por infinita doçura, no seio dessas vozes humildes dispersas em vosso mundo.

Essa é a única trégua em meio ao trabalho de iluminar e guiar-vos, ó homens rebeldes, que acreditais dominar e sois dominados, que pensais subir, mas, na verdade, desceis. Eu poderia, contudo, atemorizar-vos por de prodígios, aterrorizar-vos com cataclismos. Convencer-vos-ia, no entanto? Minha mão se levanta sobre vós, que sois maus, como uma bênção, nunca para vinganças.

Não vos iludais: reconhecei a minha voz. Reconhecei-a pela sua imensa tonalidade, pela sua bondade sem fronteiras. Algum homem, porventura, já falou assim? falo-vos de coisas singelas e elevadas, de coisas boas e terríveis. Sou a síntese de todas as Verdades.

Não me oponhais barreiras de vossas almas, mas escutai, ponderai, deixai que este raio de luz que vem de Deus desça à vossa consciência e a ilumine. Eu vô-lo rogo, humilhando-me em vossa presença; humildemente, para vossa salvação, eu vos suplico: escutai a minha voz!

Que sobre vós desça a paz. A paz! A paz que não mais conheceis venha sobre vossas almas! Entre vós e a divina justiça está minha oração: "Deus, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

Pobres seres perdidos na escuridão das paixões; pobres seres que tomais por luz verdadeira o ouropel fascinador das coisas falsas da Terra! Pobres seres, maus e perversos! E, no entanto, sois meus filhos e por amor de vós de novo subiria à cruz para vos salvar. Pobres seres que, numa vitória efêmera de matéria, que chamais civilização, haveis perdido completamente o único repouso do coração — a minha paz.

Escutai-me. Falo-vos com amor, imenso amor. Fui por vós insultado e crucificado, e vos perdoei; perdôo-vos ainda e ainda vos amo. Trago-vos a paz. Até junto de vós retorno para falar-vos de uma ciência que a vossa não conhece, para pronunciar-vos a palavra que nenhum homem sabe falar, palavra que vos saciará para sempre. Escutai-me.

Minha voz conduzirá vosso coração a um êxtase que nenhuma vitória material, que nenhuma grandeza do mundo jamais vos poderá dar.

Como um clarão intuitivo, minha luz espargirá sobre vós uma compreensão a que os laboriosos processos de vossa razão não chegarão jamais. A razão, filha do raciocínio, discute e calcula, mas eu sou o clarão que em vós se acende e pode, num átimo, transformar-vos em heróis. Aceitai, suplico- vos, este supremo dom que vos ofereço e pelo qual vim de tão longe até junto de vós: aceitai esta dádiva esplêndida, que é a minha paz. É a bem-aventurança do céu, que vos trago de mãos cheias; é a felicidade que coisa alguma terrena jamais vos poderá dar. Reconhecei a minha paz! Para recebê-la, abri todas as portas de vossa alma! Dela saciai-vos, com ela inebriai-vos! É um dom imenso que vos trago do seio de Deus, é uma graça com que o meu imenso Amor recompensa a vossa ingratidão.

Até vós eu venho, trazendo os mais lindos dons, para derramar sobre vossas almas a verdadeira felicidade. Venho para suavizar a Justiça Divina. Fiz longa e fatigante viagem, do meu Céu radioso às vossas trevas. Vim espontaneamente, pelo amor que vos consagro. Não renoveis as torturas do Getsêmani, as angústias da incompreensão humana, os tormentos de um imenso amor repelido.

Quem sou eu? - perguntais-me.

Sou o calor do sol matinal que vela o desabotoar da florzinha que ninguém vê; sou o equilíbrio que, na variação alternadora dos elementos, a todos garante a vida. Sou o pranto da alma quebrantada, em que desabrocha a primeira visão do divino. Sou o equilíbrio que, nas mudanças dos acontecimentos morais, a todos promete salvação. Sou o rei do mundo físico de vossa ciência; sou o rei do mundo moral que não vedes.

Sempre me procurais, em toda a parte. Sempre mais profundamente vos escapo, de fibra em fibra, nas vossas mesas de anatomia, de molécula em molécula nos vossos laboratórios. Vós me procurais, dilacerando e dissecando a pobre matéria: mas eu sou espírito e animo todas as coisas. Não com os olhos e os instrumentos materiais, mas somente com os olhos e os instrumentos do espírito podereis encontrar-me.

Escutai com atenção esta grande palavra: desejo que o equilíbrio, violado pela vossa maldade, se restabeleça pelos caminhos do amor e não pelo castigo. Compreendeis a grande diferença?

Eis as razões da minha intervenção, da minha presença entre vós.

A Lei quer o equilíbrio. É a Lei. Vós a desrespeitastes com vossas culpas, ultrajando assim a Divindade. O equilíbrio "deve" restabelecer-se, a reação "deve" verificar-se, o efeito "deve" acompanhar a causa, por vós livremente buscada.

Deus vos quer livres, já o sabeis. Pois bem, eu venho para que o equilíbrio se restabeleça pelos caminhos do amor e da compreensão; venho para incitar-vos, com palavras de fogo, ao entendimento, estimular-vos a retomar livremente a via da redenção; finalmente, venho ensinar-vos a fazer de vossa liberdade um uso que vos eleve e salve, e não que vos rebaixe e condene. Venho tornar-vos conscientes dessa Lei que vos guia e da maneira de restaurardes a ordem violada, a fim de que essa violação não venha a recair sobre vós, como tremendo choque de retorno que destruirá vossa civilização.

Venho para salvar-vos, para salvar o que de melhor possuís, o que fatigosamente os séculos têm acumulado, ao preço de muitas dores e de muito sangue.

Entre a necessidade férrea da Lei que, inexoravelmente, volve ao equilíbrio, interponho hoje o meu amor e a minha luz, como já interpus a minha dor e o meu martírio!

Homens, tremei! É supremo o momento. É por motivos supremos que do Alto desço até vós. Escutai-me: o mundo será dividido entre aqueles que me compreendem e me seguem e aqueles que não me compreendem e não me seguem. Ai destes últimos! Os primeiros encontrarão asilo seguro em meu coração e serão salvos; sobre os outros a Lei, não mais compensada pelo meu amor, descerá inelutavelmente e eles serão arrastados por um vendaval sem nome para trevas indescritíveis.

Sou o sorriso da criança e a carícia materna; sou o gemido daquele que corre implorando salvação; sou o calor do primeiro raio de sol da primavera, que traz a vida e sou o vendaval que traz a morte; sou a beleza evanescente do momento que foge; sou a eterna harmonia do universo.

Sou Amor, sou Força, sou Idéia, sou Espírito que tudo vivifica e está sempre presente. Sou a lei que governa o organismo do universo com maravilhoso equilíbrio. Sou a Força irresistível que impulsiona todos os seres para a ascensão. Sou o cântico imenso que a criação entoa ao Criador.

Tudo sou e tudo compreendo, até o mal, porquanto o envolvo e o limito aos fins do bem. Meu dedo escreve, na eternidade e no infinito, a história de miríades de mundos e vidas, traçando o caminho ascensional dos seres que para mim se voltam, seres que atraio com meu Amor e que recolherei na minha luz.

Muitos mundos já vi antes do vosso, muitos verei depois dele. Vossas grandes visões apocalípticas para mim são pequeninas encrespaduras nas dimensões do tempo. Virei, entre raios de tempestade, para dobrar os orgulhosos e elevar os humildes. Virei vitorioso na minha glória e no meu poder, triunfante do mal, que será rechaçado para as trevas.

Tremei, porque quando eu já não for o Amor que perdoa e vos protege, serei o turbilhão que tempestua, serei o desencadear dos elementos sem peias, serei a Lei que, não mais dominada pela minha vontade, trazendo consigo a ruína, inexoravelmente explodirá sobre vós.

Tudo é conexo no universo; causas físicas e efeitos morais, causas morais e efeitos físicos. Um organismo compressor vos envolve e nele estais presos em cada ato vosso.

Minha poderosa mão firma o destino dos mundos e, no entanto, sabe descer até a mais humilde criancinha para lhe suster, carinhosamente, o pranto. Essa é minha verdadeira grandeza.

Ó vós que me admirais, tímidos, no ímpeto da tempestade, admirai-me, antes, no poder que tenho de fazer-me humilde para vós, no saber descer do meu elevado reino à vossa treva; admirai-me nessa força imensa que possuo de constranger meu poder a uma fraqueza que me torna semelhante a vós.

Não vos peço que compreendais meu poder, que me situa longe de vós; rogo-vos que compreendais o meu amor que me assemelha a vós e me coloca ao vosso lado. Meu poder poderá desalentar-vos e atemorizar-vos, dando-vos de mim uma idéia não justa, a de um senhor vingativo e despótico. Não quero vossa obediência por temor. Agora deve despontar uma nova aurora de consciência e de amor. Deveis elevar-vos a uma lei mais alta e eu retorno hoje para anunciar-vos a boa nova. Não sou um senhor vingativo e tirânico, como outrora, por necessidade, me supuseram os povos antigos; sou o vosso amigo e é com palavras de bondade que me dirijo ao vosso coração e à vossa razão.

Não mais deveis temer, mas, sim, compreender. Vossa razão infantil já acordou e nela venho lançar minha luz. Sou síntese de verdade e em toda a parte ela surgirá, atingindo a luz da vossa inteligência.

Não trago combates, mas paz. Não trago divisões de consciência e, sim, união de pensamentos e de espíritos.

A humanidade terrestre aproxima-se de sua unificação, numa nova consciência espiritual. Não vos insulteis, pois; antes, compreendei-vos uns aos outros. Que cada um concorra com o seu grãozinho para a grande fé e que esta vos torne todos irmãos.

Que a religião, que é revelação minha, e a ciência, que é o vosso esforço e todas as vossas intuições pessoais se unam estreitamente numa grande Síntese, e seja esta uma síntese de verdade.

Porque eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.


____________ 
"Sua Voz", por Pietro Ubaldi, 2 de Agosto de 1932, dia do "Perdão de Porciúncula" de S. Francisco de Assis

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ALUNOS FILÓSOFOS

Comentário(s)

Por Eronildo Aguiar
Terminada a aula de Filosofia no 9º ano, um aluno me questionou: Professor, o senhor acredita na existência de Deus? Respondi: A pergunta teria que ser modificada viu, Ary? 'Existência' é uma palavra que pode ser entendida como: "Mostrar-se, estar do lado de fora". Desta maneira, não é adequado perguntar sobre Deus existir, pois se Ele corresponder a "algo que está fora" num mostrar-se, Ele seria um efeito, e sendo um efeito, já não seria Deus, pois teria se originado de uma causa. A pergunta mais apropriada, seria: Se Deus é uma realidade (?).... E o Ary, já um pouco impaciente comigo: Certo, professor. Mas, o senhor acredita nesta Realidade? Respondi: Sim. Acredito. Ao que ele retrucou: eu não acredito (tentando finalizar a conversa, ao mesmo tempo que apertava os lábios). Então, fiz uma reflexão em voz alta, para que ele juntamente com o Felipe (que ouvia atentamente) me acompanhassem no raciocínio:

Há algumas possibilidades para responder sobre os objetos concretos percebidos pelos nossos sentidos (Estrelas, o Sol, os Planetas, O Sistema Solar, etc). Se uma Realidade desconhecida, um Princípio Criador não for real,  eles surgiram do nada, e os que não acreditam em Deus estarão certos. Deus não "existirá". Mas, a razão nos diz que, do nada, nada pode surgir... O que é o nada? O nada, nem definido pode ser, porque não é nada. Do nada, nada surge, nem definição! Isso parece lógico, não acham? Uma segunda possibilidade, é a destes objetos terem surgido de uma Causa. Seriam provenientes dessa Realidade Desconhecida. Ou são objetos surgidos do nada, como os que negam o Princípio Criador (Deus) dizem, ou são originados desta Causa que,  embora não se tenha evidências, a razão aceita facilmente. Pergunto: vieram do nada, ou vieram de uma Realidade desconhecida? "Não há efeito sem causa", é um axioma de Ciência. Esta Realidade não é algo (efeito), não é efeito, não é alguém (efeito), não é do mundo da Ciência (humana), mas parece autoevidente, e a razão aceita. O que acham?”

A conversa continuou por mais alguns minutos com  eles (Ary e Felipe), e outros que se mostraram pensativos, e inquietos. Não mais afirmaram nada, mas ficaram pensativos. Enquanto saí, pensando nesses meus alunos filósofos...

sábado, 17 de novembro de 2012

SER CULTO PARA SER LIVRE

Comentário(s)

Por Eronildo Aguiar
Formar é dar forma. De fora para dentro. Como os escultores que dão forma as pedras informes. Os pintores, que dão vida a quadros brancos (sem informação); e ainda, os escritores que serão lembrados pela forma de suas idéias registradas nos livros. Formar homens de cultura de papagaio ou dar toda a liberdade e informação possível para que eles mesmos se tornem cidadãos auto-educados? Qual o melhor caminho? Eis o busílis de toda à questão!

Mas, e se o caminho de formação dos cidadãos for equivocado? Medido pela régua de quem pretende formar “novos homens" ? Todos os regimes totalitários tinham como bandeira formar o Homem Novo, o Homem Integral. Tanto Comunismo como Nazismo foram pelo caminho do formar. Para ter bom caráter, é preciso ser educado. A palavra educar, vem do verbo eduzir, é o contrário de induzir. Educação se dá de dentro para fora (é individual), ao contrário da indução que se dá de fora para dentro. É o caminho tomado pela maioria das escolas no mundo. Instruem mas não educam. Induzem mas não fazem eduzentes.

A bem da verdade, ninguém pode ser educado por outro, mas poderá ser instruído (de fora para dentro) indutivamente; caso tenha liberdade e muita informação, o cidadão poderá ser alguém de um belo caráter por sua própria educação (de dentro para fora). Podendo assim, se tornar um homem formado, ou um homem auto-formado!

Isso dependerá muito dele, e da forma como foi instruído.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PACIFISTAS E PACIFICADORES

Comentário(s)

Por Eronildo Aguiar
Dar aula é um mistério. As vezes a gente se programa e a aula não flui, e há casos de improviso que saem melhor do que o esperado. Foi o que ocorreu nesses dias, numa aula de Filosofia para o 9º ano do ensino fundamental II. O tema era: Paz e Guerra. 

Comecei  lembrando a falta de um bom dicionário de filosofia para o português. Há certas ideias que carecem de palavras precisas para moldar um conceito satisfatório. No caso da Paz, por exemplo, ao se falar de pacificadores e pacifistas há uma necessidade de distinção. Uns e outros são diferentes, filosoficamente falando. Pacificador é aquele que consegue promover uma paz temporal, se impondo muitas vezes pelo uso da força física - Fala-se em polícia pacificadora, não em polícia pacifista. O pacifista não intimida, simplesmente convence. O primeiro denota poder pelo temor, o segundo por amor a alguma causa. Um impõe, o outro propõe. Um é mando, o outro é convite. Exército inglês e Mahatma Gandhi podem ser tomados como exemplos respectivos de pacificador e pacifista.

Pacifistas e pacificadores têm princípios diferentes. O primeiro grupo é norteado pela ética, o segundo por leis humanas . O primeiro, é de consciência  [ou religião]; o segundo, da ciência. É comum pacifistas serem tidos como homens de religião e pacificadores como homens da ciência. 

Os primeiros são amados, o segundo, temidos.

domingo, 21 de outubro de 2012

OS 60 SEGUNDOS INESQUECÍVEIS

Comentário(s)

Por Eronilldo Aguiar
Dia desses,  numa das turmas que dou aula, no 6 º ano do ensino fundamental II, estava explicando as diferenças entre ser feliz e estar contente, Ser e Estar; ou seja, sobre felicidade constante­­ e contentamento passageiro.

Procurava mostrar aos alunos que os contentamentos ocorrem pela aquisição de algum objeto desejado, e que estas alegrias passageiras se desfazem logo após a perda de interesse pelo objeto conquistado. E que a felicidade, por se tratar de um estado de espírito, era constante.  Foi quando uma das alunas ao fundo levantou a mão. Queria fazer uma pergunta: “Professor, como o Sr. sabe que a felicidade é constante?”

Da posição em que eu me encontrava até chegar a ela para responder foi o que chamei de 60 segundos connections. Enquanto caminhava, tentava encontrar a melhor resposta. Uma que a fizesse compreender, não uma resposta técnica, mas uma que a fizesse encontrar a resposta dentro dela mesma. Assim, não procurei respondê-la de imediato, apenas a questionei:

EU- Francisca, Jesus era um homem feliz ou contente? 

ELA – Feliz.

EU – Você consegue vê-lo infeliz?

ELA – Não.

EU – Então ele era feliz o tempo todo?

ELA – Sim.

EU – A felicidade dele era constante, então?

ELA –  (!)

EU - ...

ELA - Entendi professor... Obrigado.

Situações como estas propiciam uma grata satisfação de dar aula.

sábado, 6 de outubro de 2012

NÃO SEJA MARIONETE DO SISTEMA

Comentário(s)

Por Eronildo Aguiar

Meu primeiro dia de aula na Universidade que frequento [UNIR] foi inesquecível. O Pessoal do DCE veio nos dá as boas vindas. Após falarem de suas experiências como participantes de movimento sociais, começaram a nos "aconselhar" nas leituras, daquelas que para eles seriam as melhores revistas semanais. A Revista Veja foi condenada de imediato! Depois, começaram a indicar àquelas que para eles seriam "AS REVISTAS!": Carta CapitalCaros Amigos...

Não foi difícil perceber a militância política de esquerda, e que o DCE não era mais que uma célula marxista subsumida dentro da UNIR, uma realidade factual em quase todas as Universidades Federais. Dificilmente um DCE não têm ligação com a esquerda. Assim, pensei, a melhor maneira de eu me tornar um Cientista Social seria procurar a neutralidade. Como naquele provérbio judeu: "Se quiser ser bom juiz, ouça o que cada um diz!", sem contar com o Aladim que dentro de mim aconselhava: "Seja um CIENTISTA, não se abstenha de ler nada, leia até bula de remédio!". 

Desta maneira, nunca segui o conselho daqueles que estavam me dando as boas vindas e tentando me "desalienar" ! Preferi continuar um "alienado", "reacionário", "burguês de direita", lendo tudo, analisando tudo, e sempre duvidando de tudo".

sábado, 10 de março de 2012

A MORTE DO MATERIALISMO

Comentário(s)

Por Eronildo Aguiar

"Cogito, ergo sun" (Duvido, logo sou)
René Descartes

A dúvida é um pensamento inato ao Ser humano. Se duvido, penso; se penso, existo. Não é uma questão de ter ou não tê-la. Ninguém aprende a ter dúvida, somos na essência duvidosos.

Não somos máquinas. Não é o ser social que determina a consciência, mas a consciência que determina o ser . É esta a constatação genial de Descartes. Com ela, o ser individual [a alma] é apresentado como uma realidade inquestionável [Duvido, logo sou]. A substância espiritual [res cogitans] é separada da substância da matéria [res extensas]. É isso que se chama de “dualismo” cartesiano. Alma e corpo [espírito e matéria] se distinguem.

O Inatismo é um fato irrefutável (Duvidamos!). Descartes matou o materialismo que apresentava o ser como produto alopensante [determinado pelo mundo externo]. Com Descartes a tabula rasa de Aristóteles e a folha de papel em branco de John Locke tem a digital imanente de Deus.

Como na propaganda da TV Cultura: não são as respostas que movem o mundo, mas as perguntas!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

EDUCAÇÃO E INSTRUÇÃO

Comentário(s)

"A instrução ensina o homem a descobrir as leis da natureza, isto é, a ciência; mas a educação leva o homem a criar valores dentro de si mesmo", diz o filósofo brasileiro Huberto Rohden nesta entrevista à VISÃO.

 "Não existe crise de educação no Brasil, nem em qualquer parte do globo. O que existe é uma deplorável ausência de verdadeira educação". Esta é a opinião do filósofo brasileiro Huberto Rohden a respeito da chamada crise da educação moderna. Rohden explica: "Não estou usando a palavra educação no sentido popular, referindo-me a graus de instrução. Uso a palavra educar no sentido rigorosamente etimológico e verdadeiro “eduzir”, indicando que o educador deve eduzir, desenvolver e manifestar o que já existe na natureza do educando". É esta razão de que, no modo de ver do professor Rohden, “uma filosofia ou uma teologia que admita de antemão que o homem seja mau por natureza não pode falar em eduzir; só poderia tratar de impingir ao educando algo alheio à sua natureza. Mas isso é o contrário à educação.” 

 Como Sócrates, Platão e os Estóicos, Rohden acredita que a boa ordem social não pode ser criada com estratagemas políticos. A boa ordem social não tem origem na política, mas na ética que ordena a consciência dos cidadãos e dos líderes da sociedade: ela se projeta na sociedade, mas está radicada no indivíduo. Nascido em Tubarão, estado de Santa Catarina, Rohden formou-se em Ciências, Filosofia e Teologia nas Universidades de Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). De 1945 a 1946, teve uma bolsa de estudos para o desenvolvimento de pesquisas científicas na Universidade de Princeton, Estados Unidos, onde teve a oportunidade de conviver com Albert Einstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito internacional da Filosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana a constituição do próprio universo. Em 1952, fundou em São Paulo o Centro de Auto-Realização Alvorada, que mantém cursos permanentes sobre Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho. É autor de mais de 60 livros, entre os quais estão Porque Sofremos, O Caminho da Felicidade, Mahatma Gandhi, Lúcifer e Logos, O Homem, Einstein - O Enigma do Universo e Educação do Homem Integral. Alto, cabelos brancos, roupas simples, mente aguçada, o professor Rohden concedeu à VISÃO a seguinte entrevista na sede do Centro de Auto-Realização Alvorada, na Rua Alegrete, 72, Sumaré, São Paulo.

VISÃO - O senhor tem dedicado boa parte do seu tempo aqui na Alvorada, enfatizando a diferença entre a instrução e a educação. 

HUBERTO ROHDEN - Não, não é bem isso. Tenho falado unicamente sobre autoconhecimento e auto-realização da natureza humana. Isso inclui tudo e vai muito além da educação. Nós temos que nos realizar. Somos embrionários; "sementes" humanas. Falando simbolicamente, temos que realizar a nossa "semente" humana em forma de uma perfeita "planta" humana. Portanto, no Centro Auto-Realização Alvorada, cuidamos do autoconhecimento da natureza humana e sua auto-realização na vida prática. Temos que saber o que somos e temos de viver de acordo com aquilo que somos. O homem deve realizar-se. Ele não é realizado; é apenas realizável. Da auto-realização fazem parte duas coisas: tanto a instrução na ciência como a educação da consciência. O Governo só pode instruir na ciência; não pode educar na consciência. A educação da consciência é do foro íntimo do indivíduo. Temos um Ministério da Instrução; não temos um Ministério da Educação. Não existe nenhum ministério da educação em nenhum país; nem pode existir. Não devemos confundir instrução com educação. A educação é muito mais profunda do que a instrução. A instrução é da inteligência; a educação é da consciência. A instrução faz o homem erudito; a educação faz o homem bom. Ambas são necessárias mas a mais importante é a educação da consciência. 

VISÃO - Então, ao contrário do que se supõe hoje em dia, a educação é uma atividade individual? 

ROHDEN - É eminentemente individual. Não pode ser uma atividade social. Ela se reflete na sociedade, mas está radicada no indivíduo. Só existe auto-educação; não existe alo-educação (educação de fora para dentro). Ou o homem se educa ou não se educa. Outros não podem educar-me; só podem mostrar-me o caminho pelo qual eu me possa educar. 

 VISÃO - Essa é, então, a função do mestre – mostrar? 

ROHDEN - Sim. O mestre é um guia. O educador pode mostrar ao educando o caminho por onde o educando se pode auto-educar. Há muita confusão hoje em dia sobre a educação. Entre centenas de livros sobre a educação, mal encontrei um que possa aprovar integralmente. Alguns têm coisas boas, mas não frisam a coisa essencial que é a auto-educação. 

VISÃO - Falou-se recentemente que o sistema educacional brasileiro estava em crise. O senhor concorda que esteja? 

ROHDEN - Crise supõe uma presença. Não existe nenhuma crise; o que existe é uma deplorável ausência de verdadeira educação. 

VISÃO - De onde surgiu essa ausência de educação? 

ROHDEN - Ela resulta do fato histórico de que a nossa evolução humana no mundo inteiro não está na altura. Não estamos na era da incerteza, da qual falou o economista John Kenneth Galbraith; estamos, sim, em estado permanente de incerteza, porque a humanidade está marcando passo na inteligência e não atingiu ainda o nível da razão, da consciência. Falta-nos uma disciplina ética avançada. Albert Einstein, que era um grande luminar, disse: "O descobrimento das leis da natureza - a ciência - torna o homem erudito; mas não torna o homem bom. O homem bom é aquele que realiza os valores que estão dentro de sua consciência. Do mundo dos fatos, que é a ciência, não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, que é a consciência. Fatos não produzem valores, porque os valores vêm de outra região."  Teilhard de Chardin disse: "O homem veio da biosfera. Está na noosfera (noos quer dizer inteligência, em grego) e age em função da noosfera. Viemos da biosfera, isto é, da esfera da vida. Nós nos intelectualizamos há milhares de anos; viemos da biosfera para a noosfera. Passamos da esfera da vida para a esfera da inteligência - e cá estamos. Acima da noosfera está a logosfera, a esfera da consciência; mas ainda não estamos lá.

VISÃO - Não há alguns indivíduos que estão acima do grosso da humanidade? 

ROHDEN - É claro. Há indivíduos isolados, esporádicos, que estão na esfera da educação da consciência. Mas a maioria não está lá. É uma questão de evolução da humanidade. A culpa não é do Brasil, nem de ninguém. É da falta de evolução superior da humanidade. Na esfera em que estamos não podemos ter educação; só podemos fazer instrução. Todos os crimes e terrorismos vêm daí. A ciência não pode abolir o terrorismo; só a consciência pode fazê-lo. Já se foi o tempo em que se dizia ingenuamente: "Abrir uma escola é fechar uma cadeia". A experiência prova que os grandes malfeitores da humanidade não foram analfabetos, mas, sim, homens que não educaram a consciência. 

 VISÃO – E as Igrejas, não favorecem a educação? Não é, essa, parte da sua razão se ser? 

ROHDEN - A teologia da Igreja ensina que melhor que viver corretamente é morrer corretamente. Se um homem vive cinqüenta anos matando, roubando, defraudando e, nos últimos cinco minutos, se confessa e se converte, vai para a vida eterna. Isso é um convite antipedagógico, um convite tácito para uma vida má, contanto que haja morte boa. As teologias são tacitamente contrárias à educação da consciência. É uma denúncia que eu faço em base real. Simples moralidade não é educação. 

 VISÃO - Mas as Igrejas não pregam a ética do Evangelho? 

ROHDEN - Não. Substituíram o Evangelho pela teologia. O Evangelho exige uma vida honesta do princípio ao fim. Mas as Igrejas pregam que basta converter-se na última hora. E tentam consertar seu erro com uma falsa interpretação das palavras de Jesus ao ladrão na cruz. 

VISÃO - Além da teologia, há na sua opinião, outras filosofias contrárias à educação operando nos chamados meios educacionais. 

ROHDEN - Os "meios educacionais" estão cheios dessas filosofias. Veja o behaviorismo de B.F. Skinner. Ele diz: "a liberdade é um mito. O livre-arbítrio não existe." É uma filosofia que diz que somos autômatos, que somos condicionados pelo meio-ambiente. Ora, se não há livre-arbítrio, então não há base para a educação. O homem tem a alternativa de ser bom ou mau; isto é, a possibilidade de auto-educação. Mas se o homem é obrigado pelas circunstâncias a ser mau, ou a ser bom, então acabou-se toda a base para a educação. Não negamos que as circunstâncias possam dificultar o exercício do livre-arbítrio; negamos que o homem normal possa ser obrigado pelas circunstâncias a ser bom ou mau. 

VISÃO - O vazio moral, a angústia existencial que muitos parecem sentir hoje em dia e que é constantemente representada na arte moderna - pintura, teatro, literatura, cinema, televisão, etc. - de onde vêm? 

ROHDEN- Vêm da falta de autoconhecimento e da falta de verdadeira educação. Esses fatores sociais - rádio, teatro, televisão, etc. - não podem educar porque, como já foi dito, a educação é um processo eminentemente individual. O que os citados fatores sociais poderiam e deveriam fazer é remover ou diminuir os obstáculos à verdadeira educação. Infelizmente, porém, quase todos os programas de cinema, rádio, televisão são flagrantemente antieducativos. E isso acaba num vácuo ou numa frustração existencial, como repetirmos sem cessar em nossos cursos da Alvorada e em nossos livros. 

VISÃO - Qual a relação entre a natureza humana e a auto-educação? 

ROHDEN - A auto-educação é a perfeita evolução da natureza integral do homem. Não é algo alheio introduzido nela; é o conteúdo interno da própria natureza, eduzido e manifestado na vida externa, individual e social. O homem profano, sem auto-compreensão, abusa de tudo, inclusive de si mesmo, a fim de ter momentos de prazer superficial. Por outro lado, o homem místico isolacionista se recusa a usar qualquer objeto; simplesmente recusa tudo. Mas o homem cósmico, o auto-educado e auto-realizado, usa de tudo sem abusar de nada. E isto é verdadeira educação. O educador deve mostrar ao educando que quer ser fiel à sua própria natureza é ser feliz, embora essa felicidade nem sempre esteja livre de sofrimento. Enquanto o educando confundir felicidade com gozo, ou infelicidade com sofrimento, não tem o caminho aberto para a verdadeira educação. O homem auto-educando pode ser feliz no meio de sofrimentos e pode também ser infeliz no meio de gozos. A base da auto-educação é autoconhecimento, como já diziam os filósofos gregos: "Conhece-te a ti mesmo."  

VISÃO- Haverá no mundo moderno um movimento de auto-educação? 

ROHDEN- Felizmente há, em todos os países, pequenos grupos que levam a sério a auto-educação. Conheço de convivência o movimento Neugeist (Novo Espírito), nos países germânicos; bem como a Self-realization  (Auto-Realização), nos países anglo-saxônicos, que, na Inglaterra, também é conhecida como The New Outlook (A Nova Perspectiva). Esses movimentos são representados no Brasil pelo Centro de Auto-Realização Alvorada. São iniciativas particulares de pequenas elites que tomam a sério a sua auto-realização, baseada no autoconhecimento da natureza humana e manifestada na vivência ética da vida diária, individual e social. Felizmente, o maior dos educadores disse, há quase 2.000 anos: "O Reino dos Céus está dentro de vós, mas é ainda um tesouro oculto, que deveis descobrir." Com isso o Nazareno afirma a presença de um elemento bom no homem e a necessidade que ele tem de revelar na vida diária esse tesouro oculto. Isto é pura auto-educação.

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PS. Última entrevista de Huberto Rohden, antes do falecimento de seu corpo, concedida ao jornalista José Ítalo Stelle, publicada na revista Visão de 9 de fevereiro de 1981.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UM DEBATE, DOIS PONTOS DE VISTA, E UMA ANÁLISE

Comentário(s)

Por Eronildo Aguiar

DEBATEDOR 1 - Amigo, a esquerda começou um trabalho de formiga desde a década de 60 no Brasil, enquanto vocês choravam num cartinho escuro, destruímos todas as bases da direita, foi um projeto de engenharia social minucioso... E vocês realmente acham que vão acabar com a esquerda com movimentos pífios de internet?? kkkkkkkk A esquerda ta em todo lugar amigo, desde a literatura infantil até um livro de matemática avançada. (Transcrito da Comunidade Brasil, no Orkut)

DEBATEDOR 2 - É sabido que a destruição da ordem é objetivo das esquerdas. Sempre foi. No Brasil se aproveitaram da ignorância popular pra implantar seus sórdidos objetivos. Tão logo o povo deixe de ignorar o que seja e a história das esquerdas... adeus pra sempre esse mal do Brasil. (Em resposta ao debatedor 1, transcrito da Comunidade Brasil, no Orkut)

A ANÁLISE: 

Para entender o debate acima, é preciso se aprofundar no pensamento de Antônio Gramsci. Depois de Marx, Gramsci é uma das figuras mais respeitadas pelos socialistas. Seus livros são a Bíblia da esquerda no Brasil. A fonte inspiradora de Gramsci, é Maquiavel: "O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume." (Antônio Gramsci)

O Príncipe Moderno idealizado pelo pensador italiano é um partido político cicerone que se desenvolve subvertendo as consciências, as mentes, e na medida que vai ganhando espaço, se tornando influente como o é, ou foi a igreja católica nas decisões intersubjetivas humanas,  toma o lugar da Divindade; transformando o Estado teísta e "alienador", em Estado laico e “libertador”. "A finalidade consiste em obter uma centralização e um impulso da cultura nacional que fossem superiores aos da Igreja Católica." (Antônio Gramsci)

Em resumo, seu pensamento, sua ideia, consiste em transmutar a Cultura Ocidental (cristã), por meio de uma inversão de valores adredemente planejada, depois de uma penetração em todos os aparelhos de cultura (Escolas públicas e privadas, mídia,  igreja, família, redes sociais, indústria, centros espíritas, etc), através de uma guerra de posição, arguta, silenciosa, e subversiva. 

Tudo começaria pela Escola Unitária [o centro catalisador da nova cultura], idealizada por ele para a criação dos Intelectuais Orgânicos (marxistas), em oposição aos Intelectuais Tradicionais (cristãos). 

Para se aprofundar no assunto, aqui:

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O Papel da Educação no Pensamento de Gramsci

Comentário(s)


Por Eronildo [1]
                                      
O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume.              Antonio Gramsci


RESUMO:

Esta é uma análise crítica ao modelo de Escola proposto por Antônio Gramsci, em seu livro: Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Serão tratados os principais conceitos do pensador italiano, tais como Hegemonia, Sociedade Política e Sociedade Civil, Intelectuais Orgânicos, e a superação do Capitalismo por meio da “Escola Unitária”.

Palavras-chave:  Marxismo - Cristianismo - Cultura Ocidental – Escola Unitária

ABSTRACT:

This is a critical analysis to the model of School proposed by Antonio Gramsci, in his book: The Intellectuals and the Organization of Culture. Will be threatened the main concepts of the Italian thinker, such as Hegemony, Political Society and Civil Society, Organic Intellectuals, and the overcoming of Capitalism through the “Unity School”.

Key-words: Marxism - Christianity - Western Culture – Unity School

THE FUNCTION OF EDUCATION IN GRAMSCI’S THOUGHT

 Introdução

Mergulhar nos pensamentos de Antônio Gramsci, sobretudo nos da área da educação, e em meio a uma análise crítica coaduná-los com as apreciações de alguns dos autores do livro: Gramsci – A vitalidade de um pensamento, é um desafio e tanto. Entre Gramsci e as apreciações dos pesquisadores, há mais que simples explicações. Há uma identificação. Um espírito de luta revolucionária em movimento que não se arrefeceu com a derrocada do Comunismo Histórico.                  

Para os menos familiarizados com o pensador italiano, considerado por muitos a maior referência do pensamento marxista do século XX, esta dissertação poderá causar surpresa, ou mesmo apreensão. Para os mais afeiçoados com a obra de Gramsci, as surpresas se justificarão por conta do método aplicado, de trazer à tona, sem máscara, a essência de seu pensamento, sem aquele revestimento de paixão que finda subsumindo criador e criatura. No mais, a proposta de Gramsci falará por si mesma.

Mas antes de uma abordagem mais aprofundada do modelo de Escola, seu objetivo, o tipo de Educação propostos por Antônio Gramsci, seria interessante uma descrição dos fatos históricos em que o pensador italiano estava inserido. Afinal de contas é preciso considerar [sem concordar plenamente] que “as idéias não nascem de outras idéias, que as filosofias não são criadoras de outras filosofias, mas que elas são expressões sempre renovadas do desenvolvimento histórico real” (GRAMSCI, 1977, p.1134) Isso facilitará, de modo significativo, a compreensão de todo o artigo; além de dá ao texto àquela fluidez apreciada por muitos e sinceramente ensejada por este articulista.

O Comunismo e a crise

Nascido na Sardenha, Itália, em 1891, Gramsci deixou sua terra natal em 1911. Em 1915, como dirigente do jornal da seção socialista de Turim optou politicamente pela oposição de seu país à guerra. Sua decisão se deu por alinhamento ideológico àqueles que contavam ou lutavam pelo fim do Capitalismo. Desde 1905, a tentativa de derrubada de governos ditos burgueses pelos comunistas no mundo tinha se iniciado. Nas cidades de Tullinn, Tartu (Estônia) e Moscou, uma forte repressão policial do Czar Nicolau II pôs fim aquelas que seriam os embriões da revolução Bolchevique bem sucedida de 1917 na Rússia. “Após a política de russificação conduzida pelo regime czarista desde os anos 1880, a revolução de 1905 e a brutalidade da repressão, aumentou o descontentamento das minorias nacionais do império.” (LAAR, 2006, p. 232).

A bem da verdade, corrija-se, desde a publicação do Manifesto Comunista de Marx e Engels (1848), várias tentativas sem sucesso de tomada e permanência no poder pelos marxistas se sucederam no Ocidente e no Oriente.  Numa ordem cronológica dos fatos poder-se-ia destacar: A revolução de Dresdem, Alemanha, no ano do Manifesto, e os surtos revolucionários que se estenderam pela França, Itália, Alemanha, Áustria e Hungria na “primavera dos povos” (atingindo inclusive brasileiros, como os líderes da insurreição praieira de Pernambuco). O atentado de 1878 (acarretando a lei anti-socialista promulgada por Bismarck). A revolução russa (Estigmatizada no trágico Domingo sangrento, em frente ao Palácio de Inverno, em Moscou) de 1905. A luta pela independência da Estônia, no mesmo ano (sob a influência de marxistas asilados naquela província), suprimida violentamente pelo governo imperial de Nicolau II. A de Portugal (1910), com a derrubada da monarquia (dos Nobres de Bragança). Novamente na Alemanha, a revolta Espartaquista de Berlim, com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht (Spartacus), entre 1918 e 1919. Ainda na Alemanha, O Governo do Soviete de Munique (1919). Na Hungria, a breve experiência da República Soviética de Bela Kún e Georg Lukács (1919). Na Itália, a revolta sindical (1919). Em 1923, após liderar uma tentativa de tomada de poder pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Hitler é preso depois de uma forte reação do Governo da Bavária. Dezesseis militantes da Tropa de Assalto (SA) são mortos.

Em Turim (1917), Gramsci participou ativamente na luta armada dos trabalhadores italianos, se destacando na insurgência dos operários. Derrotados, com o sinistro de 500 mortos e mais de dois mil feridos após a insurreição, Gramsci assume como Secretário da Seção Regional do Partido Socialista a função de reorganizar o movimento.

Muitas outras tentativas de tomada de poder pelos comunistas se darão em todo o mundo no transcorrer do século XX. É nesse clima de ações e reações armadas nas várias insurreições de 1848 a 1923, na Europa, América e Ásia, que se abriu uma crise teórica entre Marxistas Clássicos e Marxistas Ocidentais[2]: Por que a revolução não deu certo no núcleo original do ocidente? Ou ainda, por que a realidade não seguiu a teoria?

A questão teórico-política fulcral de Gramsci é precisamente a do porquê da derrota da revolução socialista internacional no núcleo original do Ocidente e, por conseguinte, a busca de hipóteses para a reversão da situação. (DEL ROIO, 1997. p. 109, grifo meu)

Com este artigo pretendo demonstrar, pela análise da Educação na óptica de Antônio Gramsci, as implicações do Cristianismo como maior obstáculo às pretensões revolucionárias dos socialistas, realçando-o como um dos pilares mais influentes na sustentação e formação cultural do cidadão ocidental; sobretudo, esclarecer qual a função da Escola na construção do indivíduo “autogovernante”, sua localização, e como a Educação poderia ser utilizada como hipótese real para reverter a situação de derrota comunista no Ocidente.  Estas e outras questões serão respondidas no tocante desta dissertação.

Alguns Conceitos Básicos de Gramsci

Para uma melhor compreensão do que Gramsci propôs para Educação é preciso avaliar suas reflexões sobre os aparelhos ideológicas do e de Estado. Gramsci fugiu do idealismo de Hegel e do Economicismo mecanicista de Marx que apontavam a resposta do fato social para uma visão mono-causal. Homem cultural, ou Homem econômico? “As idéias vem antes dos fatos!”, “os fatos vêm antes das idéias!”. As duas exclamações refletem bem a antinomia entre Positivistas e Marxistas no final do século XIX. O mais importante para Gramsci não era nem a coerção da cultura nem a coerção do mercado, mas a construção de uma ordem social cada vez mais contratual, hegemônica, menos coercitiva, e desagregadora da Cultura Ocidental (Cristã), a grande responsável pela bancarrota da revolução socialista.

Simplificando. Segundo ele, a “alienação” do cidadão se dá por uma rede de conexões interligadas que perpassam o indivíduo. Estas conexões são advindas de uma Superestrutura do Bloco Histórico Hegemônico, formada por aparelhos liderados por Intelectuais Tradicionais, tanto na Sociedade Política quanto na Sociedade Civil; findando numa ampliação do Estado; desfechado por uma hegemonia. Dito de outra maneira, Superestrutura do Bloco histórico é o conjunto formado pela Sociedade Política que agrupa as esferas do Estado (Governo, Setores administrativos, Empresas públicas, etc) e a Sociedade Civil — sua maior abrangência —, constituída pelo amalgama de organismos ditos privados (Empresas particulares, Igrejas, Sindicatos, Ordens Religiosas, Família, etc.) que contribuem dialeticamente na formação do senso comum, do folclore, das crenças; fatores determinantes para manutenção da hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade. Tudo isso determinando a concepção de mundo das classes dirigentes. Ela, a Superestrutura do Bloco histórico hegemônico, abrange toda a ideologia. É um pensamento vivo, “o imperativo categórico” que sustém e mantém o Capitalismo num processo hegemônico. Para uma mudança cultural, uma “reversão [total] da situação”, seria necessário um combate efetivo pela “ocupação de espaços”, por uma penetração de elementos individuais em todos os organismos de e do Estado, por meio de uma “guerra de posição” constante em que a escola tem um papel primordial. O Cristianismo (através de suas Igrejas e escolas) como principal alvo não ficaria de fora desse empreendimento:

O decisivo, porém, é a desagregação de todo o bloco intelectual que dá consistência ao bloco histórico, encabeçado pelos grandes intelectuais meridionais de cultura abstrata universalista [clérigos, Pastores, Espíritas, pensadores racionalistas]. Então, aos intelectuais orgânicos desse bloco histórico (filósofos idealistas e cientistas técnicos positivistas, ligados à indústria), que em meio à revolução passiva subsumiram os intelectuais tradicionais (PADRES, professores, médicos), deveria se antagonizar uma nova intelectualidade revolucionária, organicamente atada às classes subalternas. (DEL ROIO, 1997. p. 115, grifos, colchetes, caixa alta, e itálico, meus).

O Pensamento de Gramsci é determinante. Sem subterfúgios, desagregar todo o bloco intelectual que dá consistência ao bloco histórico. Para isso, uma massa de intelectuais revolucionários — atada às classes subalternas ligadas a indústria — terá de ser criada para uma substituição, gradual, dos intelectuais tradicionais e influentes.

Cristianismo e o Ocidente

Se levado em conta a influência que o Cristianismo teve e tem, sem a qual não teria sido possível à consolidação da cultura ocidental, tal qual a percebemos hoje, haveria uma necessidade de “introdução de elementos” da sociedade civil através da “guerra de posição”. Guerra que visa sempre e constantemente a “ocupação de espaços” na sua totalidade, numa introdução “virótica” nos organismos sociais tradicionais e na célula familiar para o controle da ordem social.

Para o autor dos Cadernos, como vimos, a própria construção do comunismo é algo que ocorre de modo progressivo, graças recordemos as suas palavras – à “introdução de elementos cada vez mais numerosos de sociedade civil”. Assim como Freud dizia que, no lugar do “inconsciente”, devemos nos empenhar para colocar o “ego”, Gramsci parece dizer: no lugar da coerção, quer ela provenha do Estado ou do mercado, do “poder” ou do “dinheiro”, devemos pôr cada vez mais esferas de consenso, de controle intersubjetivo das interações sociais, ou seja, devemos ir assim construindo uma ordem social cada vez mais contratual e menos coercitiva. (COUTINHO, 1997. p. 35-6, negrito meu)


Oportuno ressaltar as alianças com a Igreja feitas pelo Estado, desde a antiguidade, em seu exercício na educação dos povos do Ocidente por meio da mensagem cristã e o acervo cultural duramente conservado por Monges copistas, guardado e salvo até nossos dias pela “mãe da civilização”.  Tudo isso serviu de amalgama na formação moral e intelectual dos cidadãos ocidentais, sobretudo por setores educacionais influentes construídos pela Igreja Católica ao longo dos séculos.  Seu enraizamento é multissecular. Paulo de Tarso, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, constituir-se-iam, pode-se dizer, as três referências responsáveis por esse condicionamento contra-producente de cidadãos pacatos à causa comunista, improfícuos ao tempo de Gramsci e hodiernamente (Nos países de cultura ocidental). “O  pacifista que age segundo o Evangelho [de Jesus] recusará pegar em armas ou então as jogará  fora, como era  recomendado  na Alemanha (WEBER. M. O trabalho intelectual como profissão)

A colaboração entre estes organismos [da sociedade civil] e as universidades deveria ser muito estreita, bem como sua colaboração com todas as escolas superiores especializadas de qualquer tipo (militares, navais etc.). A finalidade consiste em obter uma centralização e um impulso da cultura nacional que fossem superiores aos da Igreja Católica. (GRAMSCI, 1982. p. 127,  grifos e colchetes meus)

Sua idéia consiste em superar a Igreja Católica na instrução dos povos. Criar uma centralização de cultura “superior” a do Cristianismo e suas ramificações, numa GUERRA DE VALORES. Marx versus o Cristo! Daí porque a necessidade de uma ação política efetiva que se daria em meio à “revolução passiva” pela “ocupação de espaços”, nas escolas (públicas e privadas), nas indústrias cinematográficas, nas igrejas, na mídia, Sindicatos, Ordens Religiosas, Centros Espíritas, Famílias, Universidades, em todos os órgãos e células que contribuem dialeticamente na formação cultural dos indivíduos. Principalmente por aqueles oriundos das “escolas unitárias”, idealizada por Gramsci, os novos Intelectuais Orgânicos criados para uma substituição gradual dos Intelectuais Tradicionais, até a subjugação total da Cultura Ocidental, numa “guerra de posição” em surdina, arguta, e subversiva.

O movimento para criar uma nova civilização, um novo tipo de homem e de cidadão, … [implica] a vontade de construir, no invólucro da sociedade política, uma complexa e bem articulada sociedade civil, na qual o indivíduo singular se autogoverne. (GRAMSCI, 1998, p. 25, grifos meu) [3]


A idéia é consolidar uma bem articulada sociedade civil capaz de transformar o indivíduo “alienado” por ideologia cristã e racionalista, em sujeito “autogovernante” marxista e materialista! A principal tarefa dos novos intelectuais revolucionários seria levar o marxismo a todas as camadas da sociedade em oposição à ideologia cristã tida como dos burgueses.

Gramsci. O teórico da “ditadura perfeita”.

Ninguém, como o filósofo italiano Antônio Gramsci conseguiu ser tão audacioso nas diretrizes para um totalitarismo “legítimo”, para um “controle intersubjetivo das interações sociais”. A pedra de toque para elaboração das novas “intelectualidades integrais e totalitárias”, seriam os partidos políticos alinhados, já que se trata de dirigir organicamente “toda a massa economicamente ativa”. Para isso, O Moderno Príncipe (ou o Partido Orgânico) — como o Príncipe de Maquiavel — organizaria toda a ação política por hegemonia, conquista, e manutenção do poder. Leia-se com redobrada atenção o que ele escreveu:

 “O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, SUBVERTE todo o sistema de relações INTELECTUAIS e MORAIS, uma vez que o seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar o poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”. (GRAMSCI, A. 2000, p. 420)



Subverter é a senha marxista de todos os tempos. Com uma particularidade em Gramsci: à diferença de uma subversão que almejava o poder na luta armada, a batalha colimada hodierna é por conquista hegemônica, no campo intelectual e moral, numa guerra de valores.  Em consonância com o pensamento de Nietzsche, é uma luta por transmutação de todos os valores, numa passagem da crença em Deus ao império da vontade humana. “A sociedade atual vive uma inversão de valores”, verdade factual. O Príncipe Moderno idealizado pelo pensador italiano é um partido político cicerone que se desenvolve subvertendo as consciências, as mentes, e na medida que vai ganhando espaço, se tornando influente como o é, ou foi a igreja católica nas decisões intersubjetivas humanas,  toma o lugar da Divindade; transformando o Estado teísta e alienador, em Estado laico e “libertador”. 

Escola Unitária. Uma proposta de Gramsci para a Educação 

Para entender toda a engrenagem de subversão idealizada por Antônio Gramsci, o Maquiavel moderno, será necessário mergulhar na sua proposta para a educação.

O advento da escola unitária significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial não apenas na escola, mas em toda a vida social. O princípio unitário, por isso, irá se refletir em TODOS os organismos de cultura, transformando-os e emprestando-lhes um novo conteúdo (GRAMSCI,  1982. p. 125, grifo, caixa alta e itálico meus)

Gramsci via a escola como um centro operacional de militância política. Do ensino primário ao ensino superior a escola é vista como um organismo a ser explorado pelos socialistas. Para se ter uma idéia, de como pensava o teórico da “ditadura perfeita”, segundo expressão do escritor peruano Vargas Llosa, basta que se consulte as páginas 32 a 35 (volume 2, Civilização Brasileira) de: Os cadernos do Cárcere; ou de preferência, as páginas 122 e 123 do Livro: Os intelectuais e a Organização da Cultura. Lá, Gramsci desenvolve o conceito de “Escola Unitária”.

A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade das escolas especializadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a "área" escolar e quanto mais numerosos forem os "graus" "verticais" da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado. (GRAMSCI, 1982. p. 9, grifos meu)


De acordo com seu modelo escolar, num período de dez anos seis deveriam ser dedicados à educação que mesclasse o ensino técnico com o universalista.  A escola é antevista por Gramsci como prática revolucionária, um internato destinado a formar militantes para servirem à causa socialista. Uma verdadeira indústria cultural de cooptação [“dos melhores alunos”] e formação de indivíduos subsumidos.

O primeiro grau elementar não deveria ultrapassar três quatro anos e, ao lado do ensino das primeiras noções "instrumentais" da instrução (ler, escrever, fazer contas, geografia, história), deveria desenvolver notadamente a parte relativa aos "direitos e deveres", atualmente negligenciada, isto é, as primeiras noções do Estado e da sociedade, como elementos primordiais de uma nova concepção do mundo que entra em luta contra as concepções determinadas pelos diversos ambientes sociais tradicionais, ou seja, contra as concepções que poderíamos chamar de folclóricas. O problema didático a resolver é o de temperar e fecundar a orientação dogmática que não pode deixar de existir nestes primeiros anos. O resto do curso não deveria durar mais de seis anos, de modo que, aos quinze-dezesseis anos, dever-se-ia poder concluir todos os graus da escola unitária. [...] De fato,a escola unitária deveria ser organizada como colégio, com vida coletiva diurna e noturna, liberta das atuais formas de disciplina hipócrita e mecânica, e o estudo deveria ser feito coletivamente, com a assistência dos professores e dos MELHORES ALUNOS, mesmo nas horas de aplicação chamada individual, etc. (GRAMSCI. 1982. p. 122-3, grifos e caixa alta, meus)


Para Gramsci, a concepção global marxista do mundo oferece as melhores diretrizes para a reforma e revigoramento da sociedade, além de transformá-la em agente de seu próprio destino. Essa constatação, ampliaria o combate político do partido pelo poder, para uma guerra em busca de hegemonia, conceito fundamental em seu pensamento; numa luta em que a nova ideologia torna-se indispensável à toda sociedade. A Escola Unitária terá como fim precípuo a conquista desta hegemonia.

O Primeiro “problema didático a resolver é o de temperar e fecundar a orientação dogmática [crença em Deus, etc.] que não pode deixar de existir nestes primeiros anos [na infância]; ou seja, deixará de existir, mas num empreendimento adrede e constante. 

Depois que a semente for fecundada sob o tempero marxista nas primeiras lições e restante do curso, os intelectuais tradicionais, racionalistas, e influentes, apreciadores das concepções “folclóricas” de filósofos como Sócrates, Platão, Tomás de Aquino, Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, e outros teístas, subsumirão em meio as novas “intelectualidades integrais e totalitárias” formadas sob a égide da “nova concepção do mundo” pela velha visão socialista, materialista, atéia.  Em síntese, a principal diferença de sua proposta e a realidade da cultura ocidental constatada, é que, no mundo consolidado pelo pensamento cristão há lugar para os intelectuais orgânicos existirem, no mundo idealizado de Gramsci, os intelectuais tradicionais vão submergindo, um por um. A proposta de Gramsci falará por si mesma.

Pode-se ter um termo de comparação na esfera da técnica industrial: a industrialização de um país se mede pela sua capacidade de construir máquinas que construam máquinas e na fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas, etc.
O país que possuir a melhor capacitação para construir instrumentos para os laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que fabriquem estes instrumentos, este país pode ser considerado o mais complexo no campo técnico-industrial, o mais civilizado, etc. Do mesmo modo ocorre na preparação dos intelectuais e nas escolas destinadas a tal preparação; escolas e instituições de alta cultura são similares. Neste campo, igualmente, A QUANTIDADE NÃO PODE SER DESTACADA DA QUALIDADE. (GRAMSCI,  p. 9, grifos e caixa alta meus)


Toda a sua quimera, suas aspirações, sua ideologia, transparecem neste último trecho. O aluno, ou seja, o “intelectual orgânico” a ser criado em todos os níveis a partir da escola unitária, é comparado a instrumento programado para fabricar outros instrumentos. Máquinas para construir outras máquinas. Sendo mais claro, militantes políticos para criação de outros militantes políticos.

Estariam as Universidades brasileiras em avançado estado de “ocupação de espaços” nessa “guerra de posição”? Quantos DCE’s (Diretório Central dos Estudantes) nas Universidades Federais e particulares, por todo o Brasil, não têm alinhamento ideológico com o pensamento socialista gramsciano?  Melhor dizendo, haverá alguma que não esteja alinhada? A realidade da Educação constatada no País pode ser considerada natural, ou haverá por trás dela uma articulação política socialista de difícil apreciação?  Estas questões merecem ser refletidas, pesquisadas, e estudadas ao máximo!

Conclusão

Para Gramsci, construir uma hegemonia requer uma luta permanente, constante, numa guerra de valores que rompam os grilhões da sociedade tradicional. Os estudantes representariam a vanguarda responsável pela diluição das fronteiras entre o mundo intelectual e o do trabalho, a serviço da causa socialista.

Em se tratando necessariamente da Educação, pode-se dizer que ela representa, no pensamento de Gramsci, o centro catalisador de todo um sistema para “libertação” do cidadão das amarras cristãs. Suas idéias e sua política concentram-se nessa escola idealizada para a causa socialista.

Na contramão do mundo, sua proposta não difere, na pretensão, das muitas tentativas de controle dos organismos da sociedade civil burguesa pelo Comunismo Histórico. A diferença, é que as eliminações dos Intelectuais Tradicionais pelos Intelectuais Orgânicos [em Gramsci, ligados à indústria] se processam numa construção contratual, ao invés de eliminações físicas ou repressivamente, como preponderava nos muitos casos que se tem notícia.

Como se vê, é um modelo escolar notadamente político, pois pretende a formação de indivíduos subsumidos para a superação da Cultura Ocidental Cristã, numa luta em que a maioria de seus agentes [ironicamente cristãos] não têm consciência da alienação que estariam sendo submetidos. Inspirada em Maquiavel a proposta de Gramsci é intelectualmente desonesta. O que há, em sua oferta de modelo escolar, é o discurso político com ar de cientificidade. Uma tentativa de usar a escola como aparelho político ideológico para reversão de derrota do Comunismo no Ocidente.  


Bibliografia

LAAR, Mart .  A Estônia e o Comunismo. In: Cortar o mal pela raiz: História e memória do comunismo na Europa. [tradução Caio Meira]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

DEL ROIO, Marcos; Gramsci contra o Ocidente. In: Gramsci. A vitalidade de um pensamento. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

COUTINHO, Carlos Nelson. Socialismo e Democracia: A atualidade de Gramsci. In: Gramsci. A vitalidade de um pensamento. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

GRAMSCI, A. Os intelectuais e a Organização da cultura. [Tradução Carlos Nelson COUTINHO]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

GRAMSCI, A. Concepção Dialética da História. . [Tradução Carlos Nelson COUTINHO]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

GRAMSCI, A.; Cadernos do Cárcere. Volume 3. Maquiavel – Notas sobre o Estado e a Política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 420 p.





[1] Eronildo Aguiar, bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pela Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e Letras de Rondônia – FARO, Técnico em Contabilidade pela Escola Rio Branco, professor de História, Sociologia e Filosofia, do ensino fundamental e médio no Centro Educacional Mojuca, e estudante do 6º período de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR.
[2] Conceito tornado popular por Maurice Merleau Ponty, o Marxismo Ocidental
(ANDERSON,1989; MERQUIOR,1987; LOUREIRO;  MUSSE, 1998)
[3] A. Gramsci, Quaderni del carcere. Torino: Einaudi, 1975, p.1020-1. Essa nota não está contida nos volumes temáticos dos Cadernos já publicados no Brasil, mas pode ser lida em C. N. Coutinho, p.25. (Gramsci – A vitalidade de um pensamento) N.A.


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