SOBRE O ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

Para os interessados em Filosofia, Ciência, Religião, Espiritismo e afins, o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi é um blog sem fins lucrativos que disponibiliza uma excelente coletânea de livros, filmes, palestras em áudios e vídeos para o enriquecimento intelectual e moral dos aprendizes sinceros. Todos disponíveis para downloads gratuitos. Cursos, por exemplo, dos professores Huberto Rohden e Pietro Ubaldi estão transcritos para uma melhor absorção de suas exposições filosóficas pois, para todo estudante de boa vontade, são fontes vivas para o esclarecimento e aprofundamento integral. Oásis seguro para uma compreensão universal e imparcial! Não deixe de conhecer, ler, escutar, curtir, e compartilhar conosco suas observações. Bom estudo!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O PAPEL DA EDUCAÇÃO NO PENSAMENTO DE GRAMSCI

Comentário(s)

Por Eronildo [1]
                                      
O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume.              Antonio Gramsci


RESUMO:

Esta é uma análise crítica ao modelo de Escola proposto por Antônio Gramsci, em seu livro: Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Serão tratados os principais conceitos do pensador italiano, tais como Hegemonia, Sociedade Política e Sociedade Civil, Intelectuais Orgânicos, e a superação do Capitalismo por meio da “Escola Unitária”.

Palavras-chave:  Marxismo - Cristianismo - Cultura Ocidental – Escola Unitária

ABSTRACT:

This is a critical analysis to the model of School proposed by Antonio Gramsci, in his book: The Intellectuals and the Organization of Culture. Will be threatened the main concepts of the Italian thinker, such as Hegemony, Political Society and Civil Society, Organic Intellectuals, and the overcoming of Capitalism through the “Unity School”.

Key-words: Marxism - Christianity - Western Culture – Unity School

THE FUNCTION OF EDUCATION IN GRAMSCI’S THOUGHT

 Introdução

Mergulhar nos pensamentos de Antônio Gramsci, sobretudo nos da área da educação, e em meio a uma análise crítica coaduná-los com as apreciações de alguns dos autores do livro: Gramsci – A vitalidade de um pensamento, é um desafio e tanto. Entre Gramsci e as apreciações dos pesquisadores, há mais que simples explicações. Há uma identificação. Um espírito de luta revolucionária em movimento que não se arrefeceu com a derrocada do Comunismo Histórico.                  

Para os menos familiarizados com o pensador italiano, considerado por muitos a maior referência do pensamento marxista do século XX, esta dissertação poderá causar surpresa, ou mesmo apreensão. Para os mais afeiçoados com a obra de Gramsci, as surpresas se justificarão por conta do método aplicado, de trazer à tona, sem máscara, a essência de seu pensamento, sem aquele revestimento de paixão que finda subsumindo criador e criatura. No mais, a proposta de Gramsci falará por si mesma.

Mas antes de uma abordagem mais aprofundada do modelo de Escola, seu objetivo, o tipo de Educação propostos por Antônio Gramsci, seria interessante uma descrição dos fatos históricos em que o pensador italiano estava inserido. Afinal de contas é preciso considerar [sem concordar plenamente] que “as idéias não nascem de outras idéias, que as filosofias não são criadoras de outras filosofias, mas que elas são expressões sempre renovadas do desenvolvimento histórico real” (GRAMSCI, 1977, p.1134) Isso facilitará, de modo significativo, a compreensão de todo o artigo; além de dá ao texto àquela fluidez apreciada por muitos e sinceramente ensejada por este articulista.

O Comunismo e a crise

Nascido na Sardenha, Itália, em 1891, Gramsci deixou sua terra natal em 1911. Em 1915, como dirigente do jornal da seção socialista de Turim optou politicamente pela oposição de seu país à guerra. Sua decisão se deu por alinhamento ideológico àqueles que contavam ou lutavam pelo fim do Capitalismo. Desde 1905, a tentativa de derrubada de governos ditos burgueses pelos comunistas no mundo tinha se iniciado. Nas cidades de Tullinn, Tartu (Estônia) e Moscou, uma forte repressão policial do Czar Nicolau II pôs fim aquelas que seriam os embriões da revolução Bolchevique bem sucedida de 1917 na Rússia. “Após a política de russificação conduzida pelo regime czarista desde os anos 1880, a revolução de 1905 e a brutalidade da repressão, aumentou o descontentamento das minorias nacionais do império.” (LAAR, 2006, p. 232).

A bem da verdade, corrija-se, desde a publicação do Manifesto Comunista de Marx e Engels (1848), várias tentativas sem sucesso de tomada e permanência no poder pelos marxistas se sucederam no Ocidente e no Oriente.  Numa ordem cronológica dos fatos poder-se-ia destacar: A revolução de Dresdem, Alemanha, no ano do Manifesto, e os surtos revolucionários que se estenderam pela França, Itália, Alemanha, Áustria e Hungria na “primavera dos povos” (atingindo inclusive brasileiros, como os líderes da insurreição praieira de Pernambuco). O atentado de 1878 (acarretando a lei anti-socialista promulgada por Bismarck). A revolução russa (Estigmatizada no trágico Domingo sangrento, em frente ao Palácio de Inverno, em Moscou) de 1905. A luta pela independência da Estônia, no mesmo ano (sob a influência de marxistas asilados naquela província), suprimida violentamente pelo governo imperial de Nicolau II. A de Portugal (1910), com a derrubada da monarquia (dos Nobres de Bragança). Novamente na Alemanha, a revolta Espartaquista de Berlim, com Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht (Spartacus), entre 1918 e 1919. Ainda na Alemanha, O Governo do Soviete de Munique (1919). Na Hungria, a breve experiência da República Soviética de Bela Kún e Georg Lukács (1919). Na Itália, a revolta sindical (1919). Em 1923, após liderar uma tentativa de tomada de poder pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, Hitler é preso depois de uma forte reação do Governo da Bavária. Dezesseis militantes da Tropa de Assalto (SA) são mortos.

Em Turim (1917), Gramsci participou ativamente na luta armada dos trabalhadores italianos, se destacando na insurgência dos operários. Derrotados, com o sinistro de 500 mortos e mais de dois mil feridos após a insurreição, Gramsci assume como Secretário da Seção Regional do Partido Socialista a função de reorganizar o movimento.

Muitas outras tentativas de tomada de poder pelos comunistas se darão em todo o mundo no transcorrer do século XX. É nesse clima de ações e reações armadas nas várias insurreições de 1848 a 1923, na Europa, América e Ásia, que se abriu uma crise teórica entre Marxistas Clássicos e Marxistas Ocidentais[2]: Por que a revolução não deu certo no núcleo original do ocidente? Ou ainda, por que a realidade não seguiu a teoria?

A questão teórico-política fulcral de Gramsci é precisamente a do porquê da derrota da revolução socialista internacional no núcleo original do Ocidente e, por conseguinte, a busca de hipóteses para a reversão da situação. (DEL ROIO, 1997. p. 109, grifo meu)

Com este artigo pretendo demonstrar, pela análise da Educação na óptica de Antônio Gramsci, as implicações do Cristianismo como maior obstáculo às pretensões revolucionárias dos socialistas, realçando-o como um dos pilares mais influentes na sustentação e formação cultural do cidadão ocidental; sobretudo, esclarecer qual a função da Escola na construção do indivíduo “autogovernante”, sua localização, e como a Educação poderia ser utilizada como hipótese real para reverter a situação de derrota comunista no Ocidente.  Estas e outras questões serão respondidas no tocante desta dissertação.

Alguns Conceitos Básicos de Gramsci

Para uma melhor compreensão do que Gramsci propôs para Educação é preciso avaliar suas reflexões sobre os aparelhos ideológicas do e de Estado. Gramsci fugiu do idealismo de Hegel e do Economicismo mecanicista de Marx que apontavam a resposta do fato social para uma visão mono-causal. Homem cultural, ou Homem econômico? “As idéias vem antes dos fatos!”, “os fatos vêm antes das idéias!”. As duas exclamações refletem bem a antinomia entre Positivistas e Marxistas no final do século XIX. O mais importante para Gramsci não era nem a coerção da cultura nem a coerção do mercado, mas a construção de uma ordem social cada vez mais contratual, hegemônica, menos coercitiva, e desagregadora da Cultura Ocidental (Cristã), a grande responsável pela bancarrota da revolução socialista.

Simplificando. Segundo ele, a “alienação” do cidadão se dá por uma rede de conexões interligadas que perpassam o indivíduo. Estas conexões são advindas de uma Superestrutura do Bloco Histórico Hegemônico, formada por aparelhos liderados por Intelectuais Tradicionais, tanto na Sociedade Política quanto na Sociedade Civil; findando numa ampliação do Estado; desfechado por uma hegemonia. Dito de outra maneira, Superestrutura do Bloco histórico é o conjunto formado pela Sociedade Política que agrupa as esferas do Estado (Governo, Setores administrativos, Empresas públicas, etc) e a Sociedade Civil — sua maior abrangência —, constituída pelo amalgama de organismos ditos privados (Empresas particulares, Igrejas, Sindicatos, Ordens Religiosas, Família, etc.) que contribuem dialeticamente na formação do senso comum, do folclore, das crenças; fatores determinantes para manutenção da hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade. Tudo isso determinando a concepção de mundo das classes dirigentes. Ela, a Superestrutura do Bloco histórico hegemônico, abrange toda a ideologia. É um pensamento vivo, “o imperativo categórico” que sustém e mantém o Capitalismo num processo hegemônico. Para uma mudança cultural, uma “reversão [total] da situação”, seria necessário um combate efetivo pela “ocupação de espaços”, por uma penetração de elementos individuais em todos os organismos de e do Estado, por meio de uma “guerra de posição” constante em que a escola tem um papel primordial. O Cristianismo (através de suas Igrejas e escolas) como principal alvo não ficaria de fora desse empreendimento:

O decisivo, porém, é a desagregação de todo o bloco intelectual que dá consistência ao bloco histórico, encabeçado pelos grandes intelectuais meridionais de cultura abstrata universalista [clérigos, Pastores, Espíritas, pensadores racionalistas]. Então, aos intelectuais orgânicos desse bloco histórico (filósofos idealistas e cientistas técnicos positivistas, ligados à indústria), que em meio à revolução passiva subsumiram os intelectuais tradicionais (PADRES, professores, médicos), deveria se antagonizar uma nova intelectualidade revolucionária, organicamente atada às classes subalternas. (DEL ROIO, 1997. p. 115, grifos, colchetes, caixa alta, e itálico, meus).

O Pensamento de Gramsci é determinante. Sem subterfúgios, desagregar todo o bloco intelectual que dá consistência ao bloco histórico. Para isso, uma massa de intelectuais revolucionários — atada às classes subalternas ligadas a indústria — terá de ser criada para uma substituição, gradual, dos intelectuais tradicionais e influentes.

Cristianismo e o Ocidente

Se levado em conta a influência que o Cristianismo teve e tem, sem a qual não teria sido possível à consolidação da cultura ocidental, tal qual a percebemos hoje, haveria uma necessidade de “introdução de elementos” da sociedade civil através da “guerra de posição”. Guerra que visa sempre e constantemente a “ocupação de espaços” na sua totalidade, numa introdução “virótica” nos organismos sociais tradicionais e na célula familiar para o controle da ordem social.

Para o autor dos Cadernos, como vimos, a própria construção do comunismo é algo que ocorre de modo progressivo, graças recordemos as suas palavras – à “introdução de elementos cada vez mais numerosos de sociedade civil”. Assim como Freud dizia que, no lugar do “inconsciente”, devemos nos empenhar para colocar o “ego”, Gramsci parece dizer: no lugar da coerção, quer ela provenha do Estado ou do mercado, do “poder” ou do “dinheiro”, devemos pôr cada vez mais esferas de consenso, de controle intersubjetivo das interações sociais, ou seja, devemos ir assim construindo uma ordem social cada vez mais contratual e menos coercitiva. (COUTINHO, 1997. p. 35-6, negrito meu)


Oportuno ressaltar as alianças com a Igreja feitas pelo Estado, desde a antiguidade, em seu exercício na educação dos povos do Ocidente por meio da mensagem cristã e o acervo cultural duramente conservado por Monges copistas, guardado e salvo até nossos dias pela “mãe da civilização”.  Tudo isso serviu de amalgama na formação moral e intelectual dos cidadãos ocidentais, sobretudo por setores educacionais influentes construídos pela Igreja Católica ao longo dos séculos.  Seu enraizamento é multissecular. Paulo de Tarso, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, constituir-se-iam, pode-se dizer, as três referências responsáveis por esse condicionamento contra-producente de cidadãos pacatos à causa comunista, improfícuos ao tempo de Gramsci e hodiernamente (Nos países de cultura ocidental). “O  pacifista que age segundo o Evangelho [de Jesus] recusará pegar em armas ou então as jogará  fora, como era  recomendado  na Alemanha (WEBER. M. O trabalho intelectual como profissão)

A colaboração entre estes organismos [da sociedade civil] e as universidades deveria ser muito estreita, bem como sua colaboração com todas as escolas superiores especializadas de qualquer tipo (militares, navais etc.). A finalidade consiste em obter uma centralização e um impulso da cultura nacional que fossem superiores aos da Igreja Católica. (GRAMSCI, 1982. p. 127,  grifos e colchetes meus)

Sua idéia consiste em superar a Igreja Católica na instrução dos povos. Criar uma centralização de cultura “superior” a do Cristianismo e suas ramificações, numa GUERRA DE VALORES. Marx versus o Cristo! Daí porque a necessidade de uma ação política efetiva que se daria em meio à “revolução passiva” pela “ocupação de espaços”, nas escolas (públicas e privadas), nas indústrias cinematográficas, nas igrejas, na mídia, Sindicatos, Ordens Religiosas, Centros Espíritas, Famílias, Universidades, em todos os órgãos e células que contribuem dialeticamente na formação cultural dos indivíduos. Principalmente por aqueles oriundos das “escolas unitárias”, idealizada por Gramsci, os novos Intelectuais Orgânicos criados para uma substituição gradual dos Intelectuais Tradicionais, até a subjugação total da Cultura Ocidental, numa “guerra de posição” em surdina, arguta, e subversiva.

O movimento para criar uma nova civilização, um novo tipo de homem e de cidadão, … [implica] a vontade de construir, no invólucro da sociedade política, uma complexa e bem articulada sociedade civil, na qual o indivíduo singular se autogoverne. (GRAMSCI, 1998, p. 25, grifos meu) [3]


A idéia é consolidar uma bem articulada sociedade civil capaz de transformar o indivíduo “alienado” por ideologia cristã e racionalista, em sujeito “autogovernante” marxista e materialista! A principal tarefa dos novos intelectuais revolucionários seria levar o marxismo a todas as camadas da sociedade em oposição à ideologia cristã tida como dos burgueses.

Gramsci. O teórico da “ditadura perfeita”.

Ninguém, como o filósofo italiano Antônio Gramsci conseguiu ser tão audacioso nas diretrizes para um totalitarismo “legítimo”, para um “controle intersubjetivo das interações sociais”. A pedra de toque para elaboração das novas “intelectualidades integrais e totalitárias”, seriam os partidos políticos alinhados, já que se trata de dirigir organicamente “toda a massa economicamente ativa”. Para isso, O Moderno Príncipe (ou o Partido Orgânico) — como o Príncipe de Maquiavel — organizaria toda a ação política por hegemonia, conquista, e manutenção do poder. Leia-se com redobrada atenção o que ele escreveu:

 “O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, SUBVERTE todo o sistema de relações INTELECTUAIS e MORAIS, uma vez que o seu desenvolvimento significa, de fato, que todo ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, somente na medida em que tem como ponto de referência o próprio Moderno Príncipe e serve ou para aumentar o poder ou para opor-se a ele. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”. (GRAMSCI, A. 2000, p. 420)



Subverter é a senha marxista de todos os tempos. Com uma particularidade em Gramsci: à diferença de uma subversão que almejava o poder na luta armada, a batalha colimada hodierna é por conquista hegemônica, no campo intelectual e moral, numa guerra de valores.  Em consonância com o pensamento de Nietzsche, é uma luta por transmutação de todos os valores, numa passagem da crença em Deus ao império da vontade humana. “A sociedade atual vive uma inversão de valores”, verdade factual. O Príncipe Moderno idealizado pelo pensador italiano é um partido político cicerone que se desenvolve subvertendo as consciências, as mentes, e na medida que vai ganhando espaço, se tornando influente como o é, ou foi a igreja católica nas decisões intersubjetivas humanas,  toma o lugar da Divindade; transformando o Estado teísta e alienador, em Estado laico e “libertador”. 

Escola Unitária. Uma proposta de Gramsci para a Educação 

Para entender toda a engrenagem de subversão idealizada por Antônio Gramsci, o Maquiavel moderno, será necessário mergulhar na sua proposta para a educação.

O advento da escola unitária significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial não apenas na escola, mas em toda a vida social. O princípio unitário, por isso, irá se refletir em TODOS os organismos de cultura, transformando-os e emprestando-lhes um novo conteúdo (GRAMSCI,  1982. p. 125, grifo, caixa alta e itálico meus)

Gramsci via a escola como um centro operacional de militância política. Do ensino primário ao ensino superior a escola é vista como um organismo a ser explorado pelos socialistas. Para se ter uma idéia, de como pensava o teórico da “ditadura perfeita”, segundo expressão do escritor peruano Vargas Llosa, basta que se consulte as páginas 32 a 35 (volume 2, Civilização Brasileira) de: Os cadernos do Cárcere; ou de preferência, as páginas 122 e 123 do Livro: Os intelectuais e a Organização da Cultura. Lá, Gramsci desenvolve o conceito de “Escola Unitária”.

A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade das escolas especializadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a "área" escolar e quanto mais numerosos forem os "graus" "verticais" da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado. (GRAMSCI, 1982. p. 9, grifos meu)


De acordo com seu modelo escolar, num período de dez anos seis deveriam ser dedicados à educação que mesclasse o ensino técnico com o universalista.  A escola é antevista por Gramsci como prática revolucionária, um internato destinado a formar militantes para servirem à causa socialista. Uma verdadeira indústria cultural de cooptação [“dos melhores alunos”] e formação de indivíduos subsumidos.

O primeiro grau elementar não deveria ultrapassar três quatro anos e, ao lado do ensino das primeiras noções "instrumentais" da instrução (ler, escrever, fazer contas, geografia, história), deveria desenvolver notadamente a parte relativa aos "direitos e deveres", atualmente negligenciada, isto é, as primeiras noções do Estado e da sociedade, como elementos primordiais de uma nova concepção do mundo que entra em luta contra as concepções determinadas pelos diversos ambientes sociais tradicionais, ou seja, contra as concepções que poderíamos chamar de folclóricas. O problema didático a resolver é o de temperar e fecundar a orientação dogmática que não pode deixar de existir nestes primeiros anos. O resto do curso não deveria durar mais de seis anos, de modo que, aos quinze-dezesseis anos, dever-se-ia poder concluir todos os graus da escola unitária. [...] De fato,a escola unitária deveria ser organizada como colégio, com vida coletiva diurna e noturna, liberta das atuais formas de disciplina hipócrita e mecânica, e o estudo deveria ser feito coletivamente, com a assistência dos professores e dos MELHORES ALUNOS, mesmo nas horas de aplicação chamada individual, etc. (GRAMSCI. 1982. p. 122-3, grifos e caixa alta, meus)


Para Gramsci, a concepção global marxista do mundo oferece as melhores diretrizes para a reforma e revigoramento da sociedade, além de transformá-la em agente de seu próprio destino. Essa constatação, ampliaria o combate político do partido pelo poder, para uma guerra em busca de hegemonia, conceito fundamental em seu pensamento; numa luta em que a nova ideologia torna-se indispensável à toda sociedade. A Escola Unitária terá como fim precípuo a conquista desta hegemonia.

O Primeiro “problema didático a resolver é o de temperar e fecundar a orientação dogmática [crença em Deus, etc.] que não pode deixar de existir nestes primeiros anos [na infância]; ou seja, deixará de existir, mas num empreendimento adrede e constante. 

Depois que a semente for fecundada sob o tempero marxista nas primeiras lições e restante do curso, os intelectuais tradicionais, racionalistas, e influentes, apreciadores das concepções “folclóricas” de filósofos como Sócrates, Platão, Tomás de Aquino, Descartes, Spinoza, Leibniz, Kant, e outros teístas, subsumirão em meio as novas “intelectualidades integrais e totalitárias” formadas sob a égide da “nova concepção do mundo” pela velha visão socialista, materialista, atéia.  Em síntese, a principal diferença de sua proposta e a realidade da cultura ocidental constatada, é que, no mundo consolidado pelo pensamento cristão há lugar para os intelectuais orgânicos existirem, no mundo idealizado de Gramsci, os intelectuais tradicionais vão submergindo, um por um. A proposta de Gramsci falará por si mesma.

Pode-se ter um termo de comparação na esfera da técnica industrial: a industrialização de um país se mede pela sua capacidade de construir máquinas que construam máquinas e na fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas, etc.
O país que possuir a melhor capacitação para construir instrumentos para os laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que fabriquem estes instrumentos, este país pode ser considerado o mais complexo no campo técnico-industrial, o mais civilizado, etc. Do mesmo modo ocorre na preparação dos intelectuais e nas escolas destinadas a tal preparação; escolas e instituições de alta cultura são similares. Neste campo, igualmente, A QUANTIDADE NÃO PODE SER DESTACADA DA QUALIDADE. (GRAMSCI,  p. 9, grifos e caixa alta meus)


Toda a sua quimera, suas aspirações, sua ideologia, transparecem neste último trecho. O aluno, ou seja, o “intelectual orgânico” a ser criado em todos os níveis a partir da escola unitária, é comparado a instrumento programado para fabricar outros instrumentos. Máquinas para construir outras máquinas. Sendo mais claro, militantes políticos para criação de outros militantes políticos.

Estariam as Universidades brasileiras em avançado estado de “ocupação de espaços” nessa “guerra de posição”? Quantos DCE’s (Diretório Central dos Estudantes) nas Universidades Federais e particulares, por todo o Brasil, não têm alinhamento ideológico com o pensamento socialista gramsciano?  Melhor dizendo, haverá alguma que não esteja alinhada? A realidade da Educação constatada no País pode ser considerada natural, ou haverá por trás dela uma articulação política socialista de difícil apreciação?  Estas questões merecem ser refletidas, pesquisadas, e estudadas ao máximo!

Conclusão

Para Gramsci, construir uma hegemonia requer uma luta permanente, constante, numa guerra de valores que rompam os grilhões da sociedade tradicional. Os estudantes representariam a vanguarda responsável pela diluição das fronteiras entre o mundo intelectual e o do trabalho, a serviço da causa socialista.

Em se tratando necessariamente da Educação, pode-se dizer que ela representa, no pensamento de Gramsci, o centro catalisador de todo um sistema para “libertação” do cidadão das amarras cristãs. Suas idéias e sua política concentram-se nessa escola idealizada para a causa socialista.

Na contramão do mundo, sua proposta não difere, na pretensão, das muitas tentativas de controle dos organismos da sociedade civil burguesa pelo Comunismo Histórico. A diferença, é que as eliminações dos Intelectuais Tradicionais pelos Intelectuais Orgânicos [em Gramsci, ligados à indústria] se processam numa construção contratual, ao invés de eliminações físicas ou repressivamente, como preponderava nos muitos casos que se tem notícia.

Como se vê, é um modelo escolar notadamente político, pois pretende a formação de indivíduos subsumidos para a superação da Cultura Ocidental Cristã, numa luta em que a maioria de seus agentes [ironicamente cristãos] não têm consciência da alienação que estariam sendo submetidos. Inspirada em Maquiavel a proposta de Gramsci é intelectualmente desonesta. O que há, em sua oferta de modelo escolar, é o discurso político com ar de cientificidade. Uma tentativa de usar a escola como aparelho político ideológico para reversão de derrota do Comunismo no Ocidente.  


Bibliografia

LAAR, Mart .  A Estônia e o Comunismo. In: Cortar o mal pela raiz: História e memória do comunismo na Europa. [tradução Caio Meira]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

DEL ROIO, Marcos; Gramsci contra o Ocidente. In: Gramsci. A vitalidade de um pensamento. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

COUTINHO, Carlos Nelson. Socialismo e Democracia: A atualidade de Gramsci. In: Gramsci. A vitalidade de um pensamento. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

GRAMSCI, A. Os intelectuais e a Organização da cultura. [Tradução Carlos Nelson COUTINHO]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

GRAMSCI, A. Concepção Dialética da História. . [Tradução Carlos Nelson COUTINHO]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

GRAMSCI, A.; Cadernos do Cárcere. Volume 3. Maquiavel – Notas sobre o Estado e a Política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 420 p.





[1] Eronildo R. de Aguiar, bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pela Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e Letras de Rondônia – FARO, Técnico em Contabilidade pela Escola Rio Branco, professor de História, Sociologia e Filosofia, do ensino fundamental e médio no Centro Educacional Mojuca, e estudante do 6º período de Ciências Sociais pela Universidade Federal de Rondônia – UNIR.
[2] Conceito tornado popular por Maurice Merleau Ponty, o Marxismo Ocidental
(ANDERSON,1989; MERQUIOR,1987; LOUREIRO;  MUSSE, 1998)
[3] A. Gramsci, Quaderni del carcere. Torino: Einaudi, 1975, p.1020-1. Essa nota não está contida nos volumes temáticos dos Cadernos já publicados no Brasil, mas pode ser lida em C. N. Coutinho, p.25. (Gramsci – A vitalidade de um pensamento) N.A.