ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

Para os interessados em Filosofia, Ciência, Religião, Espiritismo e afins, o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi é um blog sem fins lucrativos que disponibiliza uma excelente coletânea de livros, filmes, palestras em áudios e vídeos para o enriquecimento intelectual e moral dos aprendizes sinceros. Todos disponíveis para downloads gratuitos. Cursos, por exemplo, dos professores Huberto Rohden e Pietro Ubaldi estão transcritos para uma melhor absorção de suas exposições filosóficas pois, para todo estudante de boa vontade, são fontes vivas para o esclarecimento e aprofundamento integral. Oásis seguro para uma compreensão universal e imparcial! Não deixe de conhecer, ler, escutar, curtir, e compartilhar conosco suas observações. Bom Estudo!


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domingo, 29 de janeiro de 2017

Análise e intuição

Comentário(s)

A psicologia faz análise sobre o homem, mas isto não é autoconhecimento. Análise do nosso invólucro físico, do nosso invólucro mental e do nosso invólucro emocional que é psicologia não é o que nós queremos. Nós queremos saber mais do que nossa embalagem corpórea, mental e emocional. Tudo isto é embalagem. São camadas externas do nosso ser. Mas, não é ainda o centro e o cerne do nosso verdadeiro ser. Então, como é que vamos descobrir o nosso centro e cerne, a nossa quintessência, a nossa realidade invisível?

Não é possível por meio de análises. Por meio de análises nós só chegamos a descobrir o que é o corpo, o que é a mente, e o que são as nossas emoções. Psicologia não vai além disto. Nenhuma psicologia vai além disto. Nenhuma análise filosófica e científica vai além das periferias do homem. Não nos interessa as periferias agora. Nós queremos saber o seu centro. E isto nós não podemos saber só por análise. Análise é necessária, mas não é suficiente. A análise tem que preceder e depois tem que vir outra coisa.

Na célebre frase de Einstein “do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho ao mundo dos valores porque os valores vêm de outra região” sintetiza em poucas palavras todo o nosso problema. Einstein diz que o mundo dos fatos pode ser analisado. O nosso corpo é um fato, a nossa mente é um fato, as nossas emoções são fatos. Podem ser analisados. Mas ele diz que do mundo dos fatos (objeto da ciência) não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores. O nosso centro ele sempre chama valor. As nossas periferias ele chama fatos. Fatos são analisáveis. Fatos corpóreos, fatos mentais e fatos emocionais são objetos da filosofia e da psicologia, mas o valor, o centro, o cerne do nosso ser, isto não se pode analisar; porque do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores...
 para desesperar! Porque nós gostaríamos tanto que do mundo dos fatos analisáveis conduzisse algum caminho, pelo menos uma picada ou uma senda estreita  mas ele diz que não conduz nenhum caminho, nem largo nem estreito. Da análise não conduz nenhum caminho para o nosso interior.

E mais tarde ele chama esses valores 
 a intuição. Da análise não há nenhum caminho para a intuição. Agora nós estamos jogando com duas palavras misteriosas. Análise e intuição. Muitos sabem o que é análise, a gente analisa a coisa corporal, a gente analisa a mente e até a psique.  Os livros estão cheios de análises. Escrevem livros maravilhosos sobre análise física, análise mental, e análise emocional. Muito bem! Agora vem uma outra coisa que não é análise. Da análise não conduz nenhum caminho para a intuição.

Huberto Rohden (Texto transcrito da aula: O Homem esse desconhecido)  

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A Reação da Natureza

Comentário(s)

"A Natureza, mesmo mineral, reage às invisíveis e variáveis irradiações do homem. Ela assume atitude negativa ou positiva, hostil ou amiga, em face do homem, consoante a atmosfera interna do homem... Toda a vida de São Francisco de Assis é uma afirmação permanente de que a Natureza não é inconsciente e que compreende a linguagem do homem, quando esta deixa o plano teórico da análise mental e passa para a misteriosa zona vital ou espiritual."

Huberto Rohden

Onde está o sofrimento?

Comentário(s)

"Os objetivos da vida são todas as coisas do nosso ego periférico, como família, propriedade, profissão, relações sociais, amizades etc. São circunstâncias fora do nosso centro, sobre as quais não temos domínio direto, e que, por isto, podem falhar — e lá está o nosso sofrimento."

Huberto Rohden

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A "Razão Áurea" do Cosmos = 1,61803...

Comentário(s)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Confiança do mundo

Comentário(s)

"Nada pode o mundo esperar de um homem que algo espera do mundo — tudo pode o mundo esperar de um homem que nada espera do mundo." 

Huberto Rohden

domingo, 22 de janeiro de 2017

A aprendizagem nunca é acumulativa

Comentário(s)

Aprender é uma coisa e adquirir conhecimento é outra. Aprender é um processo contínuo, não um processo de adição, não um processo em que se acumula e a partir daí se age em consonância. A maioria de nós acumula conhecimento sob a forma de memória, de ideias, armazena-o como experiência e, a partir daí, age. Isto é, nós agimos com base no conhecimento, no conhecimento tecnológico, no conhecimento enquanto experiência, no conhecimento enquanto tradição, no conhecimento que se obtém através das nossas tendências idiossincráticas particulares; com esse fundo, com essa acumulação sob a forma de conhecimento, de experiência, de tradição, agimos. Nesse processo não existe aprendizagem. Aprender nunca é um ato acumulativo; é um movimento constante. Não sei se alguma vez se colocaram esta questão: o que é aprender e o que é a aquisição de conhecimento?... A aprendizagem nunca é acumulativa. Não se pode armazenar aprendizagem e então, a partir desse armazém, tomarmos as nossas ações. Aprendemos à medida que caminhamos. Assim, nunca existe um momento de regressão, ou deterioração, ou de declínio.

(Jiddu Krishnamurti - O Livro da Vida)

sábado, 21 de janeiro de 2017

Comentário(s)

"A fé não é uma renúncia às faculdades de pensar, ela é antes um estado de graça, que vê e conhece por outras vias e conserva em si a sua alegria infinita; é uma doação em que nada se perde, porque àquele amor e àquela confiança responde o Universo, retribuindo com novas doações; não é cegueira senão para os cegos, porque naquela cegueira se abre a visão e se revelam os céus e aparece fulgurante o pensamento de Deus." 

Pietro Ubald - Livro: "Ascese Mística"

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Os Estatutos do Homem

Comentário(s)

(Acto Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Thiago de Mello, Santiago do Chile, Abril de 1964

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Caracteres-argila, caracteres-cristal, caracteres-aço

Comentário(s)

O leitor que nos seguiu até aqui, já deve ter percebido que existem três classes de homens, no que tange a sua evolução interna: os profanos, os iniciandos e os iniciados. Sendo que os do segundo grupo se acham entre os do primeiro e do último, resolvemos chamar-lhes “iniciandos”, quer dizer, seres em vias de iniciação, ou iniciáveis. Não quer isto dizer que, de fato, venham a ser iniciados, uma vez que, em qualquer ponto intermediário da longa jornada entre a completa profanidade e a definitiva iniciação, existe a possibilidade do regresso, da apostasia, da decaída.

De acordo com esses três estágios evolutivos, distinguem-se entre os homens três tipos de caráter, que resolvemos qualificar simbolicamente como homens 1) de caráter-argila, 2) de caráter-cristal 3) e de caráter- aço.

1 – Caracteres-argila

Que forma tem a argila? o barro mole? Nenhuma. É essencialmente amorfa, mas suscetível de qualquer forma que se lhe queira imprimir. Sendo que a argila não possui, em virtude da sua natureza, forma alguma própria, intrínseca, aceita toda e qualquer forma alheia, extrínseca – perdendo-a também com a mesma facilidade.

O homem profano é exatamente como a argila amorfa e formável. Não tem forma específica, não possui caráter certo, mas é amoldável a todas as ambiências. O homem profano não possui centro próprio, e, por isto mesmo, não pode guardar fidelidade a si mesmo, porque não possui um “Eu central” que lhe possa servir de eixo, foco ou, centro de gravitação. Falta-lhe aquilo que se chama “personalidade”. Ele não é propriamente uma pessoa, é apenas um indivíduo. É, a bem dizer, um “ninguém”, e é por isto mesmo que pode vir a ser tudo. O homem de caráter-argila vive em permanente adultério ou divórcio consigo mesmo – ou melhor, é vítima de uma constante e ilimitada “prostituição espiritual”. Qualquer aragem de opinião pública dá com ele em terra. Abandona hoje o que ontem abraçou, e vai apostatar amanhã daquilo que hoje adora. Anda sempre disperso e derramado pelo mundo inteiro, mas nunca está “em casa” concentrado dentro do próprio Eu – também, como podia esse homem estar com seu Eu, se esse Eu não existe propriamente? O homem profano não é, de fato, uma pessoa, mas antes uma coisa, ou até muitas coisas ligeiramente conexas. Pratica um esporte sui generis: aplaude de manhã as idéias de um orador ou escritor, para trocá-Ias ao meio-dia por uma ideologia oposta, a qual à noite vai ser sacrificada por uma mensagem diferente. Como as primitivas amebas, sabe ele assumir todas as formas imagináveis. Como o interessante camaleão, absorve rapidamente as cores do ambiente. O homemargila é antes um processo transitório do que uma substância permanente.

Esse homem é a mais infeliz das criaturas, objetivamente considerado, e tanto mais infeliz quanto mais ele ignora essa sua enorme infelicidade, porque é incapaz de enxergar o abismo da sua miséria. Não é ainda um ser humano especificamente definido, é antes matéria-prima para algum homem possível, espécie de embrião ou feto em vias de evolução, recebendo todos os elementos plásticos do seio materno através do cordão umbilical. É vivido pelo organismo da mãe, não vive propriamente vida individual.

O mundo de hoje está repleto de homens “nascituros” desse gênero, homens sem personalidade própria, sem a menor independência de espírito, homens que pensam pela cabeça dos outros, pelas colunas dos jornais, pelas ondas do rádio, pelos boatos das esquinas, pelo estado fortuito dos seus nervos, pelas secreções endócrinas de certas glândulas, pelo conteúdo momentâneo do estômago, pelas oscilações do termômetro e do barômetro, etc. E, mesmo que pensem por vezes, muito antes de começarem a pensar, já sabem perfeitamente o que deve ser pensado naquelas 24 horas...

Esses homens pertencem, propriamente, como dizíamos, à classe dos moluscos, ou moluscóides ou – outros invertebrados primitivos...

2 – Caracteres-cristal

Horrorizado do amorfismo dos homens-argila, procuram outros criar dentro de si um caráter rigorosamente definido, acabando por cristalizar o seu Eu numa forma estritamente determinada, com faces e arestas precisas e inconfundíveis. São, de fato, como cristais, cujas facetas e arestas não podem ser modificadas sem quebrar o cristal todo.

Esses homens têm “personalidade”, possuem um “Eu” certo, giram em torno dum eixo nitidamente conhecido, e não se desviam, em hipótese alguma, dessa trajetória de precisão matemática. Ao invés dos homens-argila, que só conhecem fins, esses homens-cristal têm princípios, normas certas e definidas, e são capazes de sacrificar todos os fins do plano horizontal da vida pela inexorável verticalidade dos seus princípios morais. A sua vida decorre como que sobre um fio de navalha, retilínea, austera, sem compromissos, nem vacilações para a direita ou para a esquerda. Nada sabem das manobras curvilíneas dos penumbristas e moluscos furtacores, dos mercadores de consciência e dos traficantes de caráter. A vida desses homens de retilínea austeridade pode parecer amarga e triste aos de fora, e, de fato, ela nada tem de comum com o dia risonho e ensolarado de milhares de outros; assemelhase antes a uma noite, uma noite estrelada cheia de trevas, é verdade, mas também repleta de magia e de encantos ignorados pelos cultores da vida fácil. Para o verdadeiro homem-cristal, os longínquos mistérios dos astros da meianoite têm maior fascínio do que, para o homem comum, as coisas propínquas do meio-dia.

Entre os santos, os profetas, os místicos, os grandes gênios da filosofia e da religião, tem havido muitos desses homens, e, se houve progresso real na humanidade, é devido, sobretudo, a esses homens-elite, porque só eles possuem a necessária voltagem para arrancar o homem-massa da sua inércia rotineira e do seu conformismo inoperante, lançando-o para dentro do campo magnético de uma vida dinâmica capaz de transformar a face da terra.

Esses homens, porém, são, por via de regra, vítimas da sua própria missão, devido, não só à incompreensão e descompreensão das massas, como também, e antes de tudo, ao próprio caráter da sua grande missão. São vítimas da sua própria espiritualidade, porque o seu Eu individual, o seu pequeno Ego humano, é a tal ponto absorvido pelo grande Tu divino, que deles se serve de instrumentos e canais, que já não podem gozar como o homem comum as coisas boas e belas da vida cotidiana. Vivem à margem da vida. Trilham veredas à parte, sendas solitárias, não frequentadas pelos ruidosos turistas da vida comum... Não conhecem as estradas gerais da turbamulta... São surdos ao ruído profano dos prazeres... Não se interessam pelo carnavalesco jazz-band de seus companheiros de outrora... A vida desses homens-cristal está repleta do silêncio da Divindade, da vasta solidão do Eterno, da luz estelar do Infinito, do sonoro Saara da oração, das longínquas vias-lácteas duma beatitude inefável de que os profanos nada suspeitam...

De maneira que a vida do homem-cristal, embora pareça tenebrosa e triste, é, na realidade, uma vida profundamente bela e feliz, ainda que a sua beleza e felicidade sejam de uma natureza completamente diferente daquilo que o analfabeto da espiritualidade entende com estas palavras. Nem há possibilidade de dar ao profano uma idéia dessa silenciosa beatitude do iniciando, ou semi-iniciado, como impossível seria explicar a um cego de nascença o que seja luz ou a um surdo o que seja música. O certo é que nenhum desses austeros peregrinos da renúncia estaria disposto a trocar a sua “bela tristeza” pela “horrorosa alegria” dos gozadores superficiais...

3 – Caracteres-aço

Depois da descrição que fizemos do homem-cristal, nada parece sobrar para uma terceira classe de caracteres. E, no entanto, essa classe existe, embora sejam relativamente poucos os homens que a ela pertencem, no presente estágio da nossa evolução. No futuro, porém, é certo, maior número de homens fará parte desses caracteres.

O maior dentre os filhos dos homens, aquele que gostava de se apelidar a si mesmo o “filho do homem” – ou seja, a Flor da Humanidade – não era da primeira nem da segunda classe acima descritas. O caráter dele era como que de aço de lei, duríssimo e ao mesmo tempo flexível como uma mola. O homem-argila, embora plasmável, não possui dureza e fidelidade a si mesmo. O homem-cristal, duríssimo, é destituído de flexibilidade e adaptabilidade, vivendo em permanente guerra com a sociedade. O homem-aço possui do cristal a dureza e da argila a plasticidade. Guia-se pela retilínea inexorabilidade das normas eternas, mas sabe adicionar a essa dura intransigência a sutil adaptabilidade ao ambiente humano. Nunca e em hipótese alguma, esse homem sacrifica os seus princípios para alcançar algum fim; não pactua jamais com o contrário, não aceita compromissos covardes, ignora ambíguas venalidades e penumbrismos oportunistas, guia-se indeclinavelmente por um código de moral absoluto e imutável – em tudo isto é ele irmão do homemcristal – mas, como dizíamos, o homem de caráter-aço possui a soberana faculdade de se adaptar externamente a todas as conveniências e ambiências sociais do momento. Ele, sem ser infiel a si mesmo, sabe ser tudo para todos, ignorante com os ignorantes, sábio com os sábios, criança com as crianças, sabe chorar com os tristes e rir com os alegres. Não é um estóico insensível às alegrias e aos sofrimentos da humanidade em derredor; não recusa sentar-se à mesa do banquete com “publicanos e pecadores”, nem desdenha aceitar as ardentes homenagens de uma “pecadora pública possessa de sete demônios” que venha banhar-lhe os pés com as lágrimas dos seus olhos, enxugá-los com a seda macia da sua cabeleira, cobri-los de beijos e ungi-los com perfumosas essências – tudo isto pode o homem-aço permitir serenamente, sem prostituir o divino santuário de sua alma, sem se divorciar dos seus ideais eternos, sem, cometer adultério contra si mesmo; porque o caráter desse homem é como um raio solar que penetra nas mais imundas sentinas sem levar daí o mais ligeiro laivo de impureza ou contaminação; por menos que os fariseus da frígida legalidade valham compreender tão estranho procedimento.

Ser tudo para todos, sem apostatar de Deus e do seu próprio Eu espiritual, é tão imensamente difícil e supõe tão completa maturidade do espírito, que a maior parte dos homens sinceros faz bem em salvar os seus princípios eternos mesmo sob pena de entrar em conflito com todos e viver à margem da sociedade. É tarefa sobre-humana ser um santo e querer, ao mesmo tempo, ser um elegante cavalheiro de salão a divertir uma turbamulta de profanos e dizer brilhantes vacuidades por espaço de horas a fio, como a sociedade mundana espera de seus filhos e escravos...

Entretanto, é necessário que o iniciado não procure acintosamente fazer da sua espiritualidade um tabu, uma torre de marfim em que se isole hermeticamente contra o mundo profano; é necessário que o homem espiritual, único elemento de que o mundo pode esperar redenção, não fuja do mundo e se acastele por detrás das muralhas maciças de uma clausura impenetrável. Pode a espiritualidade degenerar no pior e mais requintado dos egoísmos humanos, como acontece todas as vezes que o homem faz de si uma exceção da regra, um não-me-toque, uma intangível sacralidade, cercando-se, talvez inconscientemente, de uma atmosfera polar de secreto menosprezo de tudo e de todos que não pertençam à sua elite. É indizivelmente difícil não contaminarmos de sutil orgulho a nossa espiritualidade. A mais difícil, como também a mais bela de todas as coisas belas é uma espiritualidade espontaneamente humilde e sinceramente natural.

O que a humanidade de hoje necessita mais do que tudo é de santos da rua, santos da praça pública, santos dos escritórios, das fábricas, da política – homens que se guiem por um código absoluto de honestidade, homens que possuam a visão clara do Eterno, a experiência do Infinito, a permanente comunhão com Deus, e ao mesmo tempo vivam a vida normal do homem comum, interessando-se vivamente por tudo que pertença à vida humana normalmente vivida.

São esses homens os verdadeiros arautos do reino de Deus, os únicos de que a humanidade de amanhã pode esperar dias melhores e mais felizes.

São eles, esses místicos dinâmicos, os iniciados perfeitos e integrais. 

(Huberto Rohden - Livro : Profanos e Iniciados)

"Que mundo maravilhoso". Bom dia!

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O que é uma mente medíocre?

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PERGUNTA: A tradição, os ideais e um certo senso de moralidade social mantinham as pessoas medíocres como eu ocupadas de maneira virtuosa; mas essas coisas já perderam para a maioria de nós toda a significação. Como podemos libertar-nos de nossa mediocridade?
KRISHNAMURTI: Senhores, que é uma mente medíocre? Não a definais - uma definição pode achar-se facilmente num dicionário -, mas observai vossa mente e tratai de descobrir por que é ela vulgar, medíocre. Diz o interrogante que a tradição, os ideais e um certo senso de moralidade social mantinham ocupadas, de maneira virtuosa, as pessoas medíocres como ele. Ora, isso não era uma "maneira virtuosa", mas uma maneira tradicional. Fazer o que a sociedade manda não é virtude; é meramente atuar como gramofone, e isso nada tem em comum com a virtude. Virtude implica liberação da avidez, da inveja, da ambição de poder, e que a pessoa fique só. Somente então pode-se falar em virtude. Atuar mecanicamente, porque durante séculos fostes educados para pensar de uma certa maneira e ajustar-vos a um certo padrão, isso não é virtude.
Que é então mediocridade? Não o sabeis? Não sabeis o que é uma mente medíocre? Ora, isso é muito simples. A mente ocupada é uma mente medíocre. Com o que quer que esteja ocupada - Deus, bebidas, sexo, poder - ela é uma mente medíocre. Compreendeis, senhores? A mente que pratica virtude de manhã à noite é uma mente ocupada, e portanto, medíocre já que está interessada em si própria. Podeis dizer: "Não estou interessado em mim mesmo; estou interessado na Índia"; mas isso é apenas transferir a própria identidade pra a uma coisa e ficar ocupado com essa coisa. Toda ocupação - com um livro, um pensamento, com qualquer uma dúzia de coisas - denota mediocridade, porque a mente ocupada não é uma mente livre. 

[...]

Não estais vendo, senhores, que andais ocupados com os assuntos de outras pessoas porque vós sois as outras pessoas, não sois vós mesmos. Não vos conheceis. Estais ocupados com coisas que vos disseram serem importantes, mas, se tiverdes um sentimento real a respeito de uma dada coisa, vereis que já não haverá ocupação. O homem dotado de profunda sensibilidade não é uma pessoa medíocre; porém, quando procura expressar essa sensibilidade em palavras e faz muito "barulho" em torno dela, quando com essas palavras busca a fama, a notoriedade, dinheiro ou o que quer que seja, então ele se torna medíocre. Assim, a investigação da mediocridade é uma investigação de vossa própria mente, e com ela descobrireis que a mente ocupada permanece sempre medíocre.

Krishnamurti - Madrasta - 23 de dezembro de 1956 
Do livro: O homem livre - Ed. Cultrix

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Amor e harmonia

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Uma grande atração governa o universo por inteiro: Amor. Ele canta na arquitetura das linhas, na sinfonia das forças, nas correspondências dos conceitos, sempre presente. Chama-se atração e coesão no nível do matéria; impulso e transmissão no nível energia; impulso de vida e ascensão no nível do espírito. É harmonia na ordem cinética, em que reside a respiração do universo. Ousamos desvelar o mistério e olhar sem véus a Lei, que é o pensamento de Deus. Em todos os campos vimos os momentos desse conceito que governa tudo. Que os bons não tenham medo de conhecer a verdade. 

"Sua Voz", por Pietro Ubaldi. No Livro: A Grande Síntese. Cap. Despedida

domingo, 15 de janeiro de 2017

Inquietude Metafísica

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Se existe o centro para o qual gravita a pedra solta no espaço;
Se existe o sol que a planta adivinha em plena escuridão.
Se existem zonas banhadas de luz e calor que, de veementes saudades, enchem as aves migratórias;
— por que não existiria, algures, esse grande astro por que minh’alma suspira?
— por que não cantaria, para além desses mares visíveis, o invisível país da minha grande nostalgia?
— Por que não?...
Seria o homem, rei e coroa da criação, a única desarmonia no meio dessa universal sinfonia da Natureza?
Um caos de desordem em pleno cosmos de ordem?
Não atingiria ele jamais a meta das suas saudades?
Seria ele mais infeliz que a pedra, a planta, o animal?
Seria ele um eterno Tântalo ludibriado pela miragem duma felicidade quimérica?
Seriam as mais nobres aspirações de minh'alma eternamente burladas por um gênio perverso e cruel?
E teria esse tirano o nome de Deus?
Quem poderia crer coisa tão incrível?
Que inteligência abraçaria tamanho absurdo?
Creio, Senhor, na imortalidade, porque creio no teu amor!
Creio na vida eterna, porque creio na ordem dos teus mundos!
Creio no mundo futuro, porque creio na harmonia do teu Universo!
Para além de todos os enigmas e paradoxos da vida presente, existem uma solução e uma verdade eterna.
Após a noite deste mundo que nos desorienta, despontará a alvorada dum dia que iluminará os nossos caminhos.

***
Continua, pois, Centro eterno, a atrair o meu coração, que inquieto está até que ache quietação em ti...
Continua, ó Sol divino, a encher-me de veemente heliotropismo o espírito, para que, no meio das trevas procure a tua grande claridade...
Continua, ó tépida Primavera, a chamar das regiões polares a avezinha nostálgica de minh'alma, que só na zona tropical do teu amor encontra paz e vida eterna...
Só em ti, meu Centro, meu Sol, minha Primavera, sucederá à dolorosa inquietude do meu espírito a inefável quietude de todo o meu ser...

Huberto Rohden - De Alma Para Alma

A dinâmica do inconsciente (Carl Gustav Jung)

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Os arquétipos, quando surgem, têm um caráter pronunciadamente numinoso, que poderíamos definir como “espiritual”, para não dizer “mágico”. Consequentemente, este fenômeno é da maior importância para a psicologia da religião. O seu efeito, porém, não é claro. Pode ser curativo ou destruidor, mas jamais indiferente, pressupondo-se, naturalmente, um certo grau de clareza” 

____________________ 
Jung, Carl Gustav. A Natureza da Psique - a Dinâmica do Inconsciente - Vol. 8/2 - Col. Obra Completa - 8ª Ed. – 2011. Editora VOZES.

O amor sem motivo

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O que é o amor sem motivo? pode haver amor sem nenhum incentivo, sem o desejo por algo? Pode haver amor sem que haja a sensação de ser ferido quando ele não é retribuído? Se eu lhe ofereço a minha amizade e você a rejeita, eu não fico ferido? Essa sensação de ser ferido é resultado, generosidade ou compreensão? Certamente, enquanto eu me sentir ferido, enquanto houver, medo, enquanto eu lhe ajudar esperando que você possa me ajudar, não existirá amor. Se você entende isso, então tem a resposta. 

(Jiddu Krishnamurti - O Livro da Vida)

sábado, 14 de janeiro de 2017

A nova psicanálise

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Imagem: IBBIS.

Os arquétipos equivalem ao que chamamos os imutáveis princípios da Lei. A reação surge aquele mundo que para o homem ignorante é o inconsciente, isto é, situado acima do seu conhecimento ou consciência, que representa a sua forma mental que contém toda a sua sabedoria, adquirida pela sua experiência passada no trabalho de construção do eu. O resultado da violação da Lei é uma perturbação como reação, que altera o equilíbrio psíquico do indivíduo. O efeito é da mesma natureza da causa. A Lei devolve ao ser, desobediente à ordem, o mesmo choque e desordem que este lançou contra ela, e que agora ricocheteia para trás e para cima do ofensor.

Eis que nas doenças nervosas e psicopáticas se trata de um choque, como reação, de uma restituição do mal, da mesma violação e desequilíbrio que o indivíduo gerou dentro da Lei e que assim ele gerou dentro de si mesmo. Esse impulso negativo, lançado em sentido anti-Lei, que é também anti-vida, e que o ser no âmbito da sua liberdade movimentou em sentido errado, agora repercute nele e o fere no espírito.

Já frisamos que um complexo é uma queimadura do espírito. Este fica magoado por tal choque de reação que, sendo de natureza negativa, produz uma doença no organismo mental, um trauma psíquico, uma ferida na alma, que dói naquele ponto, com todas as suas consequências cerebrais, nervosas e até físicas.

Pietro Ubaldi. Livro: Princípios de Uma Nova Ética. Cap. 08 - A NOVA PSICANÁLISE

Ouvir sem pensamento

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Não sei se alguma vez ouviram um pássaro. Ouvir alguma coisa exige que a nossa mente esteja silenciosa — não um silêncio místico, silêncio simplesmente. Estou a dizer-vos algo e, para me ouvirem, têm de estar silenciosos, e não com todo o tipo de ideias a zunirem na vossa mente. Quando olham para uma flor, olham para ela, sem estarem a dar-lhe um nome, sem a estarem a classificar, sem dizerem que ela pertence a determinada espécie — quando o fazem, deixam de a ver. Assim, o que vos digo é que ouvir é uma das coisas mais difíceis — ouvir o comunista, o socialista, o deputado, o capitalista, qualquer pessoa, a vossa mulher, os vossos filhos, o vosso vizinho, o condutor do autocarro, o pássaro — apenas ouvir. É só quando ouvem sem nenhuma ideia, sem pensamento, que estão em contato direto; e ao estarem em contacto percebem se aquilo que o outro está a dizer é verdadeiro ou falso; torna-se desnecessário discutir.

(J. Krishnamurti, Livro: A Vida)

Quem olha para dentro, acorda (Carl Jung)

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"Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda."
Carl Jung

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Colocar os Véus de Lado

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De que forma ouvem? Ouvem com as vossas projecções, atra­vés da vossa projecção, através das vossas ambições, desejos, medos, ansiedades, ouvindo apenas aquilo que desejam ouvir, apenas aquilo que vos satisfará, que será gratificante, que pro­porcionará conforto, que irá aliviar, no momento, o vosso sofri­mento? Se ouvirem através do véu dos vossos desejos, então estão obviamente a ouvir a vossa própria voz, estão a ouvir os vossos próprios desejos. E haverá alguma outra forma de ouvir? Não será importante descobrirmos como ouvir não apenas o que está a ser dito, mas tudo — os ruídos da rua, o chilrear dos pássaros, o barulho do eléctrico, o mar revolto, a voz do vosso marido, a vossa mulher, os vossos amigos, o choro de um bebé? O ouvir só é importante quando não estamos a projetar os nossos próprios desejos naquilo que estamos a ouvir. Será possível colocarmos de lado todos estes véus através dos quais ouvimos, e sermos capazes de ouvir realmente?

(J. Krishnamurti, Livro: A Vida)

Quando a ética deixar de ser dolorosa...

Comentário(s)

Não minto...      

Não engano... 
       
Não mato...  

Não roubo...  
   
Não adultero...   
      
Não exploro...     
    
Não odeio... 

Não sou egoísta...

Toda pessoa aprova estas afirmações éticas em forma negativa, embora não as  pratique, talvez. E os que as praticam sabem quão  difícil é ser bom, moralmente honesto, eticamente correto.

A vida ética é, de fato, uma interminável série de sacrifícios, razão por que há tantas leis, promessa de prêmios, cominação de penalidades, sanções de todo o gênero, a fim de obrigar ou compelir os homens a evitar o mal e fazer o bem. O homem, no presente estágio  evolutivo, tem de ser compelido, física  ou moralmente, para ser “bom” – por quê? Porque ainda não é impelido a ser bom. Onde não há impulso deve haver compulsãoCompelir denota um agente externo, impelir revela um agente interno.  A ética  compulsória  é  imperfeita  e precária, embora necessária  em certo nível evolutivo da humanidade. Mas, quando a compulsão externa cede lugar ao impulso interno, quando a  lei é integrada no amor, deixa a ética de ser cruciante e sacrificial, para se tornar fácil, deleitosa, entusiástica.

O profano total não pratica a ética, nem por impulso interno nem por compulsão externa, porque é um analfabeto absoluto nos domínios do universo espiritual.

O homem semi-profano e semi-espiritual – quer dizer, o homem de boa vontade, mas ainda sem experiência pessoal de Deus – pratica ou procura praticar os preceitos éticos com o constante esforço de um herói que, dia a dia, hora por hora, vive a lutar contra a gravitação do seu Eu inferior; esse homem é moralmente bom, embora não seja espiritualmente perfeito. A imensa maioria dos homens bons do presente século pertence a  este  grupo.  São eles  os autores da filosofia popular de que “todo o mal é fácil e todo o bem é difícil”, filosofia, certamente exata, quando considerada à luz da nossa evolução atual.

Entretanto,  é  fora  de  dúvida  que  não  é  nem  pode  ser  este  o  estado  final  e definitivo da humanidade. O destino do homem não é ser sacrificialmente bom, mas sim jubilosamente bom, e, portanto, bom e feliz, como são todos os seres que já atingiram o “céu”, por terem feito o centro do seu pequeno Eu humano coincidir perfeitamente com o centro do grande Tu divino; todos eles sabem de ciência própria que essa concentricidade do querer da criatura e do querer do Creador não só  faz o homem absolutamente bom, senão  também integralmente feliz. De fato, o ser-bom em toda a sua plenitude e maturidade é idêntico ao ser-feliz em toda a sua extensão  e intensidade. Todo  ser integralmente bom é necessariamente um ser totalmente feliz, uma vez que a nossa felicidade não  é outra  coisa  senão  a  perfeita  harmonia,  com as leis eternas, do nosso ser humano, leis essas essencialmente idênticas às leis que regem o universo. Estar em harmonia com Deus é estar em harmonia com o Eu e com o Cosmos – e é precisamente nesta  perfeita sintonização ou harmonia que consiste a nossa felicidade. Sendo que Deus é a íntima essência do meu ser humano e do ser do cosmos, é evidente que a harmonia com Deus implica necessariamente a harmonia comigo mesmo e com o mundo de Deus. Se assim não fosse, o mundo de Deus não seria um cosmos de ordem e harmonia, mas sim um caos de desordem e desarmonia.

Nesse  plano final da evolução, o imperativo categórico do dever é absorvido pelo optativo volitivo do querer. A lei é integrada no amor. A ética é sublimada em mística. Esse homem ama a lei, gosta de fazer o que deve, saboreia como suprema liberdade aquilo que aos outros amarga como escravidão da lei. Esse homem cumpre a mesma lei que os outros cumprem (ou não cumprem), mas cumpre-a de outro modo, cumpre-a livre e espontaneamente, quando outros a cumprem por entre queixumes e gemidos.

A  verdadeira e  definitiva  redenção  do  homem  vem do  amor à  lei,  amor esse que supõe, naturalmente, a perfeita compreensão da alma da lei.

O corpo da lei é amargo – a alma da lei é suave.

O profano odeia a lei.

O homem meramente ético tolera a lei.

O homem espiritual ama a lei.

Para o primeiro, a lei é a grande inimiga.

Para o segundo, é uma soberana exigente. 

Para o terceiro, é amiga querida.

O que não se faz com espontâneo amor, prazer e entusiasmo, não tem sólida garantia de perfeição e perpetuidade. Se o homem comesse, bebesse e dormisse só por ser de sua estrita obrigação ética, já não existiria homem vivo sobre a face da terra; se o homem, e em geral os seres orgânicos, praticassem atos sexuais com fins de procriação apenas compelidos pelo inexorável imperativo do dever, já não haveria vestígio de vida orgânica no planeta Terra. Mas, como as necessidades básicas do indivíduo e da espécie estão invariavelmente ligadas ao prazer, ou seja, a uma espécie de “felicidade” ou experiência de “bem-estar”, existe sólida garantia de perpetuidade do indivíduo através da espécie, porquanto o fim último de todo o ser é a sua felicidade. A felicidade não é um meio para algum outro fim, mas é um fim em si mesma. Ninguém quer ser feliz para alguma coisa ulterior, como quer ganhar dinheiro ou procura trabalho ou empreende viagens; a felicidade tem a sua razão-de-ser dentro de si mesma, é auto-imanente, é o termo da jornada e de todas as jornadas do homem; ao passo que todas as outras coisas são apenas caminhos e meios que levam a esse termo feliz.

Por  isto,  quando  o  homem  descobre  a  dulcíssima  medula  do  amor  no duríssimo invólucro da lei, estão garantidas a sua bondade e a sua felicidade indefectíveis, porque a inefável delícia que ele descobre em ser bom é infalível garantia da sua persistência no bem.

A última razão de perpetuidade da religião sobre a face da terra está no fato de aparecerem, periodicamente, grandes gênios de espiritualidade que conhecem a Deus por experiência pessoal e encontram intensa delícia em o “amarem de todo o coração, de toda a alma, de toda a mente e com todas as suas forças” – homens cuja paixão metafísica e, se assim se pode dizer, cuja volúpia mística consiste nesse irresistível devotamento, nesse misterioso abismar-se na Divindade – são eles que garantem a perpetuidade da religião. Para eles, cumprir a vontade de Deus não é medicina amarga, mas sim um delicioso manjar, uma saborosa iguaria, um lauto banquete, uma festa nupcial, uma extasiante sinfonia musical, no dizer de Jesus, que, de vasta e profunda experiência pessoal, sabia dessa inefável beatitude de ser integralmente bom.

Se não houvesse esses excelsos ébrios da Divindade e iniciados no reino de Deus, a religião já estaria extinta, porque os cumpridores da ética cruciante e sacrificial não ofereceriam suficiente garantia para sua perpetuação; sucumbiriam, cedo ou tarde, ao peso da cruz da sua moralidade obrigatória. Felizmente, o vasto incêndio espiritual dos místicos irradia da sua inesgotável plenitude calor suficiente para manter o nível da temperatura religiosa nas zonas frígidas circunjacentes, e, não raro, lança do seu seio fagulhas ígneas que ateiam novos incêndios nas almas receptivas, que contenham em si o necessário combustível para receber e manter o fogo sagrado da humanidade espiritual. Há quase vinte séculos que o maior desses homens-incêndio preserva o gênero humano da morte de congelamento espiritual, graças à intensidade do fogo divino de que ele estava repleto.

O homem plenamente espiritual é o rei dos realistas. Ele não mente, não engana, não mata, não rouba, não adultera, não explora, não odeia, não é egoísta, simplesmente porque já não pode fazer estas coisas, que lhe são profundamente anti-naturais, anti-biológicas, anti-vitais, horríveis, feias, ingratas, positivamente impossíveis. Por outro lado, esse homem integralmente bom experimenta todas as coisas boas como gratas, deleitosas, belas, estéticas, queridas; ser-bom é para ele ser-belo, ser-feliz.

Esse homem transcendeu todos os problemas negativos...

Descobriu o elixir da felicidade...

Entrou no reino de Deus...

(Huberto Rohden - Livro : Profanos e Iniciados)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sensação é uma coisa e felicidade é outra.

Comentário(s)

Sensação é uma coisa, e felicidade é outra. A sensação está sempre indo atrás de mais sensação, em ciclos mais e mais amplos. Não há fim para os prazeres da sensação; eles se multiplicam, mas sempre há insatisfação na sua realização; há sempre o desejo por mais, e a demanda por mais não tem fim. Sensação e insatisfação são inseparáveis, pois o desejo de mais mantém os dois juntos. Sensação é o desejo de mais e também o desejo de menos. No próprio ato de realização ou sensação, nasce a demanda por mais. O mais está sempre no futuro; é a eterna insatisfação com o que houve. Há conflito entre o que houve e o que haverá. Sensação é sempre insatisfação. A pessoa pode vestir a sensação com trajes religiosos, mas ela é ainda o que é: uma coisa da mente e uma fonte de conflito e apreensão. As sensações físicas estão sempre pedindo mais; e quando são contrariadas, surge raiva, ciúme, ódio. Existe prazer no ódio, e a inveja é satisfatória; quando a sensação da pessoa é contrariada, encontra-se satisfação no próprio antagonismo que a frustração provocou. 

(J. Krishnaurti - Commentaries on Living Series I Chapter 85, Sensation and Happiness.) 

Felicidade? Não: Felicidade Imperturbável!

Comentário(s)

Tem-se dito que o fim supremo do homem é a sua felicidade. É inadequada essa expressão. Porquanto, também o profano, o homem  não-espiritual, é “feliz”, isto é, enquanto ele é capaz de ser feliz. Muitos dos profanos que tenho interrogado a respeito asseveraram-me que eram “felizes”. 

Entretanto, nem qualquer espécie de felicidade é o verdadeiro fim do homem. 

Porque  há  uma felicidade  relativa,  minúscula,  precária  –  e  há  uma FELICIDADE ABSOLUTA, maiúscula, sólida. Qualquer felicidade que não seja absoluta  contém  sempre um  germe  do  contrário,  quer  dizer,  um germe  de infelicidade.  Pode  alguém ser atualmente feliz e ao mesmo tempo potencialmente infeliz, porque a sua  chamada “felicidade” assenta alicerces numa ignorância, total ou parcial, da Realidade Absoluta. Esse  homem não atingiu ainda a última fronteira, não derrotou ainda o último inimigo, e por isto sempre são possíveis surpresas ingratas e imprevistas que lhe destruam a “felicidade” precária e instável que possui ou julgava possuir. A ignorância da Suprema  e Última Realidade é sempre uma porta aberta para a  infelicidade, pois, no dia e na hora em que o ignorante perder a sua ignorância – lá se foi a sua linda bolha de  sabão a que ele  chamava sua “felicidade”. É perigoso edificar a felicidade sobre a tenuíssima e fragílima camada duma  bolha de sabão, por mais lindas que sejam as suas cores. 

Posses materiais, fama,  saúde – três  lindas  bolhas  de  sabão  sobre  as quais milhões de homens erguem o edifício da sua “felicidade”. Coisa precária! coisa incerta! Amanhã vem um terremoto – e lá se vai tudo em ruínas!

A maior felicidade desse gênero é, certamente, a saúde, porque sem ela todas as  demais felicidades terrestres pouco valem. Mas quem me garante que amanhã um bando de bactérias não virá destruir o edifício da minha saúde e felicidade?... Quer dizer  que  essa tal felicidade depende das boas ou más graças de uns micróbios!... Sou feliz por obra e mercê de um bando de streptococcus ou de uns invisíveis vírus... Se essas criaturinhas houverem por bem não me fazer infeliz, sou feliz; se resolverem o contrário, sou infeliz...

É  necessário  que  a  nossa  felicidade  esteja  baseada em  algo  que,  em  caso algum, possa ser destruído por fatores alheios à vontade do homem. 

Mas que é esse “algo”?

É a sapiência, o conhecimento intuitivo de Deus, que, naturalmente, implica o amor de Deus e de tudo que é de Deus.

Há  um  caminho ascensional do  não-saber  ao  saber – mas  não  há  caminho descensional do saber ao não-saber.

Da  minha ignorância  negativa de  ontem  passei para  a sapiência  positiva de hoje – mas desta não posso voltar para aquela. Posso chegar a saber o que ignorava – mas não posso tornar a ignorar o que sei. De infeliz posso vir a ser feliz  –  mas  da  felicidade perfeita  não  há  regresso  para a infelicidade. A felicidade, porém, nunca consiste em ignorância, ilusão, irrealismo. A verdadeira felicidade supõe verdade, sapiência, realidade. A verdade absoluta é  infinitamente mais bela que todas as pseudo-belezas das ilusões ou semiverdades. Enquanto alguém não tiver os pés solidamente firmados no alicerce eterno  da Realidade Absoluta, Deus, não tem garantia real de que amanhã ainda continue a ser feliz. Enquanto a minha felicidade dependa de algo que não dependa de mim, não sou solidamente feliz. Se os azares da fortuna, se a malevolência do meu vizinho, se um determinado micróbio no meu sangue, se um certo humor nos meus fluidos orgânicos ou certa vibração nos meus nervos forem os árbitros e fatores decisivos da minha felicidade ou infelicidade, evidentemente não sou feliz, porque não sou eu o  autor e dono desses estados; estou entregue à mercê de fatores que não obedecem à minha vontade.  

A felicidade deve necessariamente consistir em algo que esteja realmente em meu poder – e isto é o conhecimento e amor de Deus. 

Uma vez atingida essa excelsa culminância, essa extrema fronteira, sinto-me imperturbavelmente feliz, na certeza absoluta de que ninguém, no céu, na terra ou no inferno, é capaz de destruir a minha felicidade. 

Ninguém? Existe, sim, um único ser capaz de a destruir – e este ser sou eu mesmo. Só eu, e mais ninguém. Mas, se eu não quero ser infeliz, ninguém me pode fazer infeliz. E eu posso não querer

O homem espiritual, o místico, o iniciado é o único homem imperturbavelmente feliz. 

(Huberto Rohden - Livro : Profanos e Iniciados)

O Amor

Comentário(s)

O amor puro é o reflexo do Criador em todas as criaturas.

Brilha em tudo e em tudo palpita na mesma vibração de sabedoria e beleza.

É fundamento da vida e justiça de toda a Lei.

Surge, sublime, no equilíbrio dos mundos erguidos à glória da imensidade, quanto nas flores anônimas esquecidas no campo.

Nele fulgura, generosa, a alma de todas as grandes religiões que aparecem, no curso das civilizações, por sistemas de fé à procura da comunhão com a Bondade Celeste, e nele se enraíza todo o impulso de solidariedade entre os homens.

Plasma divino com que Deus envolve tudo o que é criado, o amor é o hálito dEle mesmo, penetrando o Universo.

Vemo-lo, assim, como silenciosa esperança do Céu, aguardando a evolução de todos os princípios e respeitando a decisão de todas as consciências.

Mercê de semelhante bênção, cada ser é acalentado no degrau da vida em que se encontra.

O verme é amado pelo Senhor, que lhe concede milhares e milhares de séculos para levantar-se da viscosidade do abismo, tanto quanto o anjo que o representa junto do verme. A seiva que nutre a rosa é a mesma que alimenta o espinho dilacerante. Na árvore em que se aninha o pássaro indefeso, pode acolher-se a serpente com as suas armas de morte. No espaço de uma penitenciária, respira, com a mesma segurança, o criminoso que lhe padece as grades de sofrimento e o correto administrador que lhe garante a ordem.

O amor, repetimos, é o reflexo de Deus, Nosso Pai, que se compadece de todos e que a ninguém violenta, embora, em razão do mesmo amor infinito com que nos ama, determine estejamos sempre sob a lei da responsabilidade que se manifesta para cada consciência, de acordo com as suas próprias obras.

E, amando-nos, permite o Senhor perlustrarmos sem prazo o caminho de ascensão para Ele, concedendo-nos, quando impensadamente nos consagramos ao mal, a própria eternidade para reconciliar-nos com o Bem, que é a Sua Regra Imutável.

Herdeiros dEle que somos, raios de Sua Inteligência Infinita e sendo Ele Mesmo o Amor Eterno de Toda a Criação, em tudo e em toda parte, é da legislação por Ele estatuída que cada espírito reflita livremente aquilo que mais ame, transformando-se, aqui e ali, na luz ou na treva, na alegria ou na dor a que empenhe o coração.

Eis por que Jesus, o Modelo Divino, enviado por Ele à Terra para clarear-nos a senda, em cada passo de seu Ministério tomou o amor ao Pai por inspiração de toda a vida, amando sem a preocupação de ser amado e auxiliando sem qualquer idéia de recompensa.

Descendo à esfera dos homens por amor, humilhando-se por amor, ajudando e sofrendo por amor, passa no mundo, de sentimento erguido ao Pai Excelso, refletindo-lhe a vontade sábia e misericordiosa. E, para que a vida e o pensamento de todos nós lhe retratem as pegadas de luz, legou-nos, em nome de Deus, a sua fórmula inesquecível: 

— “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”

 Emmanuel - Livro: Pensamento e Vida. Por Francisco Cândido Xavier.


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