SOBRE O ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

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sábado, 23 de maio de 2015

A alvorada da Filosofia Univérsica e do Homem Cósmico (1)

Comentário(s)

Por Huberto Rohden


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A Filosofia Univérsica, ou Cósmica, é a filosofia segundo o Universo, ou cosmos.

Não trata apenas da amplitude extensiva da Filosofia Universal, mas da profundidade intensiva que caracteriza o próprio Universo. Não toma por ponto de partida e termo de referência alguma pessoa — Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Spinoza, Kant, Descartes, Hegel, Bérgson — nem se guia por uma determinada escola do pensamento — empirismo, racionalismo, idealismo — mas reflete a própria índole da Constituição do Universo, isto é, a mais intensa unidade na mais extensa diversidade — o uni-verso em toda a sua genuinidade e integridade.


A filosofia Universica aceita, naturalmente, como contribuintes, todas as correntes válidas do pensamento humano, mas não navega em nenhum desses afluentes do grande Amazonas da Filosofia Perene, e sim na grande síntese do próprio Cosmos.


O Universo Integral — como causa e efeito, como essência e existência, como alma e corpo, como fonte e canais — é o único modelo válido para o pensamento e a vida do homem. O homem integral e perfeito é plasmado à imagem e semelhança dos Cosmos, uno em seu ser, múltiplo em seu agir. O homem bom é o homem cósmico, o homem mau é o homem acósmico ou anticósmico. 


uno do Universo é o Infinito — o verso (vertido, derramado) são os Finitos. O Uno e único, diriam os orientais, é Brahman, que se derrama ou pluraliza no múltiplo Maya.

Nem o uno do Infinito, nem os múltiplos dos Finitos, quando tomados disjuntivamente, são o grande Todo do Universo; somente o uno e osmúltiplos — a fonte e os canais — quando tomados conjuntivamente, é que perfazem o Universo em toda a sua genuinidade e integridade, O Infinito da essência se revela sem cessar nos Finitos das existências. A Transcendência do Deus do mundo aparece na Imanência dos mundos de Deus. O Universo é essência-existência, causa-efeito, alma-corpo, ser-agir, infinito-finito, eterno-temporário, imanifesto-manifesto, absoluto-relativo.


A alma do Deus do mundo se revela nos corpos dos mundos de Deus.


O homem, esse microcosmo, reflexo do macrocosmo, não pode atingir diretamente a longínqua transcendência do Uno-Infinito da Divindade — mas pode atingir a propínqua imanência dos Diversos-Finitos de Deus, que transparecem em todas as coisas do mundo. Deus é a Divindade em sua imanência infinita. A Divindade, por assim dizer, se finitiza em Deus. A Divindade “é” — Deus “existe”. Ninguém pode conhecer a Divindade-ente — só pode conhecer algo do Deus-existente. O grande Além-transcendente ecoa nos pequenos Aquéns-imanentes.


* * *

A palavra grega kósmos quer dizer belo (cf.cosmético).


A palavra latina mundus, sinônimo de Universo, quer dizer puro (cujo contrário é imundo).


O Universo é, pois, belo e puro, quando tomado em sua genuína totalidade.


Quanto mais o ánthropos (homem) se assemelha ao kósmos, tanto mais belo e puro é ele. Quando o homem se distancia do kósmos ou mundus, deixa de ser belo e puro. Deve, pois, o homem cosmificar-se ou mundificar-se para ser integralmente ele mesmo, belo e puro, 100% ánthropospara ser imagem fiel do kósmos — deve ser homem cósmico, homem univérsico.



* * *


Segue-se que o homem profano, não-cosmificado, é feio e impuro. Conhece apenas a parte efeitual, o corpo, a periferia do Universo, os finitos, os diversos, acessíveis aos sentidos e ao intelecto.


O homem místico avançou um grande passo; é semi-belo e semi-puro; refugiou-se ao uno central do Universo, a Deus, à alma, ao Infinito, e nele se isolou beatificamente. De tanto amor à unidade, odeia todas as diversidades; fugiu do caos das periferias e caiu na monotonia do centro.


O homem cósmico, depois de mergulhar totalmente no eterno uno do cosmos e nele se consolidar definitivamente pela experiência “eu e o Infinito somos um”, realiza um movimento reversivo rumo às periferias, sem deixar o centro; ramifica-se através de todos os diversos do mundo, penetrando da intensa luz central da sua consciência unitária todas as trevas e penumbras das diversidades periféricas, tornando transparentes pelo fulgor do seu ser todas as opacidades do seu agir. De dentro do seu silencioso nirvana(1) central domina o homem cósmico todos os ruidosos sansaras periféricos do mundo em derredor.


O homem univérsico vive a causa una em todos os efeitos múltiplos, faz transbordar a sua experiência mística em vivência ética, infinitizando todas as finitudes, lucificando todas as trevas, vivificando todas as mortalidades.


Em virtude dessa sua experiência de centralidade, tem o homem cósmico o poder de exprimir em forma concreta o grande abstrato da Realidade Infinita; vê o Transcendente do Infinito como Imanente em todos os Finitos; enxerga o único além nos múltiplos do Aquém, o Deus dos mundos nos mundos da Divindade.

Por isto, é o homem univérsico ao mesmo tempo filósofo e artista, porque visualiza o Infinito em todos os Finitos — que é próprio da vidência filosófica — e sabe revestir de forma finita, concreta-individual, o sem-forma do Abstrato-Universal — que caracteriza a vivência artística.


Para ele, a Verdade da Filosofia se revela na Beleza da Poesia, se entendermos por “poesia” a arte em geral. (2)


Quando Mahatma Gandhi disse que “a verdade é dura como diamante e delicada como a flor de pessegueiro”, teve ele a intuição do Universo e do Homem como sendo o uno da Verdade (dureza do diamante) revelado como o diverso da Beleza (delicadeza de flor de pessegueiro).


Toda vez que a Verdade culmina em Beleza, o “Verbo se faz carne”, a filosofia nasce como poesia.


O músico, o escultor, o pintor, o poeta, o ético — são homens capazes de dar forma concreta à Realidade abstrata. A intuição da Realidade universal é própria de todos os filósofos — mas a expressão em forma concreta é peculiar aos artistas. O homem cósmico é necessariamente um filósofo-artista, um homem integral.


O pintor usa, como meio de expressão da sua inspiração, tinta e tela.


O escultor serve-se de um bloco de mármore ou granito, ou modela o seu ideal em massa plasmável.


O músico revela a sua visão abstrata na vibração concreta de sons aéreos.


O poeta concretiza a substância mental do universo em roupagens de palavras estéticas.


O místico revela a sua intuição divina em atos de ética (3) humana, fazendo transbordar a plenitude do “primeiro mandamento” nas torrentes benéficas do “segundo mandamento”, fazendo o bem aos outros por ser bom ele mesmo.


Todos eles são homens cósmicos, filósofos-artistas, que concretizam o Universal da Verdade no Individual da Beleza.


Do consórcio da Verdade e da Beleza, do conhecer e do agir, nasce o Homem Cósmico, o “filho do homem”, em toda a sua plenitude, “cheio de graça e de verdade”.



* * *


É chegado o tempo para construirmos a filosofia sobre esse fundamento univérsico, liberta da estreiteza de pessoas e de escolas, filosofia como reflexo e eco do próprio Universo.


É o que tenho tentado fazer em algumas dezenas de livros — é o que tento fazer, em síntese, nas páginas deste livro (4).


Os métodos que visa esse ideal são, por vezes, complicados e laboriosos — mas a meta é simples e gloriosa.


Não perca, pois, o leitor a visão da meta longínqua que demandamos em face das setas que colocamos nas encruzilhadas da nossa jornada. Sirva-se destas como de diretrizes seguras à beira da estrada — mas tenha o bom-senso de abandonar as setas a fim de atingir a meta que elas indicam. Quem se agarra à seta na encruzilhada falha o sentido dela. O sentido da flecha é ser abandonada; a sua finalidade é transcendente, e não imanente; não é um espelho refletor, mas uma janela aberta que dá visão para horizontes além. A missão da seta ultrapassa o seu corpo presente e se realiza na alma ausente, a meta, que jaz em região longínqua, para além da ponta da seta indicadora.


Assim são os métodos visando à meta.


* * *


A verdadeira filosofia visa a dar ao homem plena autonomia e autocracia, em todos os setores da vida. Procura isentá-lo de todas asheteronomias e heterocracias, as quais, por algum tempo, são indispensáveis como muletas provisórias, mas que serão abolidas quando o homem convalescer das fraquezas do seu pequeno ego telúrico e atingir a saúde do seu grande Eu cósmico.


Esse Eu cósmico não é algum elemento adventício, alheio à natureza humana, mas é o íntimo quê, o reduto central do homem, o seu genuíno e autêntico EU SOU. O que o homem conhece, ou julga conhecer, conscientemente — o seu ego físico-mental-emocional, a sua persona ou máscara — são apenas as periferias externas da sua natureza; o seu centro interno jaz, ainda desconhecido ou mal suspeitado, nas profundezas do seu Inconsciente, que é o Infinito, o Absoluto.


Quando esse Inconsciente do Eu acordar e permear todos os setores do ego consciente, integrando-os no seu domínio, então nasce o Homem Cósmico, que está para o Homem Telúrico assim como a planta em plena evolução está para a semente de que brotou.


O Homem Cósmico é explicitamente o que o Homem Telúrico é implicitamente.


A semente, para dar origem à planta, morre como semente — mas não morre como vida; e, para que a vida latente possa brotar em vida acordada, deve a estreiteza da semente ceder à largueza da planta.


Toda iniciação, toda auto-realização, supões algo parecido com uma destruição, uma morte, uma extinção, um aniquilamento. Quem não está disposto a morrer espontaneamente não pode viver gloriosamente. Nesse querer-morrer espontâneo está todo o segredo do poder-viverplenamente. Morrer, ou antes, ser morto compulsoriamente — por um acidente, uma doença ou uma velhice — não resolve o problema; é necessário que o homem esteja disposto a morrer espontaneamente antes de ser morto compulsoriamente. Só assim se realiza ele plenamente, e para sempre.


É o misterioso “Stirb und werde!” de Goethe.


É o último segredo do Evangelho do Cristo e da Bhagavad Gita do Oriente. Morrer relativamente — para viver absolutamente!...


Quem puder compreendê-lo compreenda-o!...

CONTINUAÇÃO:



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