SOBRE O ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

Para os interessados em Filosofia, Ciência, Religião, Espiritismo e afins, o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi é um blog sem fins lucrativos que disponibiliza uma excelente coletânea de livros, filmes, palestras em áudios e vídeos para o enriquecimento intelectual e moral dos aprendizes sinceros. Todos disponíveis para downloads gratuitos. Cursos, por exemplo, dos professores Huberto Rohden e Pietro Ubaldi estão transcritos para uma melhor absorção de suas exposições filosóficas pois, para todo estudante de boa vontade, são fontes vivas para o esclarecimento e aprofundamento integral. Oásis seguro para uma compreensão universal e imparcial! Não deixe de conhecer, ler, escutar, curtir, e compartilhar conosco suas observações. Bom estudo!

domingo, 30 de novembro de 2014

NUMA CASINHA HUMILDE À BEIRA DO MAR

Comentário(s)

Encontro-me em plena solidão, numa praia deserta. O mundo, as suas imagens e as suas coisas, tudo está longínquo. Nem o eco dos seus rumores, problemas e paixões atinge este imenso silêncio. Como o céu, a planície e o mar são infinitos, também aqui os pensamentos se tornam sem limites. Neste lugar tudo é tão simples e grandioso que parece ter acabado de sair das mãos de Deus. A laboriosa cisão do dualismo, a luta entre contrários, de que é feita a vida, procuram aqui pacificar-se para se desvanecerem na unificação suprema de todas as coisas em Deus. 

Aqui existo fora dos confins do espaço e do tempo, porque, no céu, na planície, no mar, não há pontos de referência, e os dias correm iguais, sem medida. Sinto-me fora das dimensões terrestres. Não adianta caminhar, porque o deserto é sempre igual, sob o mesmo céu, em frente do mesmo mar. O movimento tem relação com o limite. No espaço e tempo infinitos, a velocidade nada modifica, anulando-se no vazio. Por falta de um ponto de referência, não havendo ponto de partida ou de chegada, toda velocidade é inútil. Mesmo o correr do tempo nada muda, porque espaço e tempo não faltam. Acima de todos esses infinitos — do céu, do deserto, do mar, do tempo — o de Deus o contempla, imóvel, ao se fundirem Nele. 

Esta é uma atmosfera diferente que respiro, outro ambiente em que penetro, outra dimensão em que existo. Superei os limites do plano físico, a barreira da forma, das ilusões, das aparências. Sou apenas um pensamento que observa aquele que se encontra em tudo o que existe. Uma força me arrastou para fora das dimensões terrestres, na vibrante imutabilidade do absoluto. 

Vivo em uma casinha humilde onde a vida, tormentosamente complicada pela civilização das metrópoles, se tornou simples e calma. Assim, o espírito se liberta de tantas necessidades materiais artificiosas e pode viver a sua vida maior em contato com as coisas eternas. Surpreende sentir o pouco de que necessitamos. E que particular sabor tudo adquire quando representa o produto da bondade, da sinceridade e do amor! Então, a pobreza se torna riqueza, enquanto a avareza e o egoísmo transformam a riqueza em pobreza. No meio da pobreza dessa riqueza o espírito se atrofia, se envenena e morre. É no meio da riqueza daquela pobreza que o espírito se expande, vive e triunfa. Pela lei da compensação, para alcançar e possuir o que se encontra mais no alto, é necessário libertar-se do que está em baixo. É no meio da riqueza espiritual dessa pobreza material que agora vivo como um grande senhor. 

É neste vazio das coisas terrenas que atinjo a plenitude das coisas do céu.

Quanto mais me afasto do que é humano, tanto mais me avizinho das coisas divinas. Delas se enche esta imensidade deserta, para que se abram as portas do céu e apareçam as grandes visões. Elas constituem já uma aproximação, um antecipar-se da libertação, tentativa e ensaio de uma vida maior que me espera. Nesta paz infinita se vai formando pouco a pouco a grande corrente que se agiganta e se torna poderosa; toma-me, absorve-me em seu seio, depois me envolve como num turbilhão e me arrasta consigo para longe. Para onde? Não sei. Leva-me para outro plano de existência, onde já não sou eu que penso, mas o universo. E a sua vida que pensa dentro de mim, porque não existo mais como eu separado, que vive e pensa isoladamente, mas sou um eu unido ao todo, um elemento que vive e pensa como um momento da vida e do pensamento do existir universal. Encontramo-nos, então, verdadeiramente fora do mundo, para além dos seus limites e das suas dimensões. 

É uma imersão, fora do espaço e do tempo, no infinito. Não tenho mais consciência do que deixei para trás. Sinto apenas o que me espera na frente, uma vertigem de vida nova e imensa para a qual me precipito. Eis-me ressuscitado mais no alto, transformado em outro ser, perdido numa dilatação sem limites, na vibrante imobilidade do absoluto.

Eis que a solidão deste deserto, do céu e do mar se enchem de vida. Na noite profunda vejo uma luz imensa e a ela me entrego. Leva-me para fora do mundo, onde a visão se torna real, clara, perceptível com novos sentidos. Contemplo-a extasiado. Observo-me para controlar tudo com a razão. Olho e registro em pensamento, transporto tudo o que vejo para o meu cérebro, para as dimensões terrestres, traduzo-o na linguagem humana e por fim o fixo com palavras nos escritos. 

Assim vivo nesta casinha humilde à beira do mar, num deserto povoado de pensamentos, no meio do vento e das ondas, hospedado graças à bondade e amor de um amigo sincero. Assim vivo aqui, livre e despreocupado, longe do inferno humano. Passo as noites escrevendo, ocupando-me de Cristo, como O sinto a meu lado. Ele me está olhando, e eu leio nos Seus olhos o pensamento de Deus. 

Quando não me é mais possível encontrar palavras para dizer o que sinto, dominado pela emoção e pela alegria, deixo cair a pena e choro. Para o meu trabalho, e, sob o olhar de Cristo, o livro continua a escrever-se, sem palavras, na minha alma e no meu destino.

(Capítulo do livro “Um Destino Seguindo a Cristo”)