SOBRE O ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

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sábado, 20 de dezembro de 2014

A NINFA OCULTA NO BLOCO DE MÁRMORE

Comentário(s)

Sócrates é, geralmente, conhecido como um grande filósofo, mestre do divo Platão- mas poucos sabem que ele era também um exímio escultor. 

Um dia recebeu Sócrates um pedido do prefeito de Atenas para esculpir a estátua de uma ninfa a ser colocada num bosque ao pé de uma fonte. 

O filósofo aceitou a encomenda. Sem tardança, mandou vir o bloco de mármore branco, de Paros, e pôs mãos à obra. 

Depois de mentalizar intensamente a efígie da ninfa, empunhou o martelo e foi desbastando o bloco de mármore. Grandes lascas voaram para direita e para a esquerda da oficina. 

Depois deste trabalho rústico, o escultor pôs de parte o martelo e outros instrumentos pesados, e começou a trabalhar com ferramentas mais delicadas , como o cinzel, e, por fim, serviu se dum finíssimo esmeril para dar acabamento à estátua. 

Finalmente, estava na oficina do escultor uma efígie de imaculada alvura, uma figura de jovem esbelta, como os antigos imaginavam as divindades dos bosques e das águas. Tão leve era o aspecto que parecia flutuar livremente no ar; parecia antes uma entidade astral do que uma estátua material. 

Por quê? 

Porque ele não aceitava ter esculpido a ninfa; ela já estava oculta naquele bloco de mármore, desde o início, e muito antes de ser visível. Eu, dizia Sócrates, já via a ninfa no dia em que fui buscar o bloco de mármore; apenas retirei dele o que a ocultava aos olhos dos que não a podiam ver antes disso; nada acrescentei, apenas retirei o que a encobria. 

Sócrates dizia uma grande verdade. Ele era um grande intuitivo. Viu o que os outros não viam. No ser humano via ele muito mais do que o corpo material- via a alma imaterial. Mas como nem todos podem ver o invisível, é necessário que alguém desbaste o bloco bruto e amorfo, para que apareça a ninfa que nele está oculta. 

Muitas vezes é a dor esse escultor carinhosamente cruel. Parece odiar o bloco bruto, de tanto amor que lhe tem. E, se o bloco humano não se defende contra as marteladas do sofrimento, a ninfa divina da sua alma pode manifestar se. 

Mas, se o homem passa a vida em brancas nuvens, como diz o poeta, nada acontecerá. 


"Quem pela vida passou em brancas nuvens. 
Em plácido dorcel adormeceu 
Quem pela vida passou e não sofreu. 
Não foi homem, foi projeto de homem. 
Que passou pela vida e não viveu!" 

Francisco Octaviano 


O mundo está repleto desses projetos de homens, assim como uma jazida de mármore está repleta de projetos de ninfa. 

O projeto de homem só conhece gozo- e nada sabe da felicidade. E passa a vida toda em brancas nuvens, trocando gozos por felicidade. E, quando alguém procura mostrar lhe o que é felicidade, o projeto de homem gozador diz que a felicidade é utopia e misticismo de sonhadores que não conhecem a vida. 

Para tirar de um bloco bruto uma efígie de beleza, deve o escultor acima de tudo, ter a intuição daquilo que ainda não existe materialmente; deve poder ver para além dos véus da matéria: deve poder conceber de dar luz à sua ninfa, mesmo por entre as dores de uma longa gestação. 

Toda felicidade passa pelo sofrimento prévio. Toda alvorada é a luz que segue às trevas da noite. 


Por Huberto Rohden