SOBRE O ACERVO VIRTUAL HUBERTO ROHDEN & PIETRO UBALDI

Para os interessados em Filosofia, Ciência, Religião, Espiritismo e afins, o Acervo Virtual Huberto Rohden & Pietro Ubaldi é um blog sem fins lucrativos que disponibiliza uma excelente coletânea de livros, filmes, palestras em áudios e vídeos para o enriquecimento intelectual e moral dos aprendizes sinceros. Todos disponíveis para downloads gratuitos. Cursos, por exemplo, dos professores Huberto Rohden e Pietro Ubaldi estão transcritos para uma melhor absorção de suas exposições filosóficas pois, para todo estudante de boa vontade, são fontes vivas para o esclarecimento e aprofundamento integral. Oásis seguro para uma compreensão universal e imparcial! Não deixe de conhecer, ler, escutar, curtir, e compartilhar conosco suas observações. Bom estudo!

sábado, 25 de janeiro de 2014

O PEREGRINO E O LOBO

Comentário(s)

Pietro Ubaldi nos conta uma fábula, baseado em suas vivências numa ilha do litoral paulista, juntamente com pobres pescadores da região, que por sua vez, achei muito inspirador, e gostaria de dividi-la com aqueles que não a conhecem:

"Nos arredores do lugarejo, numa praia abandonada, vivia solitário um rebelde à ordem social, um homem feroz, ladrão e assassino, que, ao Invés de trabalho, preferia viver de delitos e de rapinagem. Era chamado o Lobo. Ninguém ia à sua cabana nem dela se aproximava sé não estivesse armado.

Falaram desse Lobo ao peregrino e este resolveu ir ao seu encontro. Lembrava-lhe isto outro encontro, com outro Lobo, talvez o nome de outro ladrão. O assassino, que foi amansado por São Francisco às portas de Gúbio. Os homens da pequena aldeia procuraram dissuadi-lo, mas ele sentiu-se irresistivelmente impelido àquela realização. Ir por aquelas paragens, sem armas, ou mesmo levando-as, mas sem saber usá-las, era loucura. Para que deixar-se matar?

Após muita discussão, um dia partiu o peregrino, desarmado, para a cabana do Lobo. Entretanto, acompanhavam-no alguns homens fortes e bem armados. Deixou-os em certo ponto, escondidos entre as árvores, de sobreaviso, para socorrê-lo, se houvesse necessidade. E encaminhou-se sozinho para a choupana.

Enquanto caminhava, refletia. Já dera um exemplo, nas grandes cidades, vencendo os mais poderosos obstáculos que lhe queriam impedir o cumprimento de sua missão. Vitória clamorosa, milagre de Deus, que lhe havia provado Seu auxílio e Sua presença a seu lado. Toda resistência havia caído e os elementos negativos tinham sido afastados, apesar de fortes e renitentes. Deus o ajudaria também, realizando este outro milagre. Era lógico e necessário também este exemplo num piano social diferente. Precisava aceitar, tinha de expor-se a esta nova prova, em que Cristo deveria triunfar mais uma vez.

O peregrino era também homem e, como tal, temia. Talvez tivessem razão os homens da pequena aldeia. Sua ousadia era loucura perigosa e inútil. Então, como sempre ocorrera nos maiores momentos de sua vida, Cristo lhe apareceu ao lado, tomou-o pela mão e, enquanto o guiava, desenvolveu-se; a seguinte colóquio:

"Filho, por que temes? Não estou sempre a teu lado?"

"Senhor, que posso eu? Não é orgulho meu pretender mais uma vitória?"

"Vai, filho; não temas; estou contigo. Falarei em teu pensamento; brilharei em teu olhar, vibrarei em ti e manifestar-me-ei através de tua paixão pelo bem. Vai! Através de ti, meu instrumento terreno, vencerei com o Amor esta alma rebelde. Vai! Vencerás. 'Estou contigo".

Peregrino do amor e da dor, nosso homem continuou pela praia, aproximando-se, cada vez mais da choupana. Os homens armados o vigiavam, assustados, de longe. Mas, ele caminhava como uma criança, abaixando-se para apanhar conchinhas na praia, admirando-lhe as belas formas. Depois, extasiado, olhava o mar, a floresta, os montes, o céu. Toda aquela beleza lhe falava de Deus. Sentia-O tão próximo, que nada mais percebia além d'Ele.

Assim, chegou à cabana. Chamou. Nenhuma resposta. Aproximou-se e bateu. Ouviu um barulho de ferragens e logo apareceu um homem forte, alto, de aspecto feroz. Olharam-se. Olharam-se ainda mais, nos olhos. Nos momentos decisivos, da vida ou da morte, o esforço da vida se concentra no silêncio. As coisas mais graves são compreendidas sem palavras. Com o olhar eles se mediram e se pesaram. O Lobo em seu instinto de fera, compreendeu que se achava diante do um homem inerme. O fato de não se achar diante do antagonista que imaginava desarmou sou primeiro ímpeto de agressão. O recém-chegado não era um inimigo. Quem era então? E que podia querer dele? E quem lhe dera coragem de chegar até lá, desarmado?

Assim, o Lobo ficou desarmado pelo inerme. Já se viram feras bravias respeitarem criancinhas inocentes. Muitas vezes a agressão é um ato de defesa, provocado pela agressão alheia, e se esta não existe, a outra não estoura. O Lobo disse apenas: "Que queres aqui? Quem és?"

Silêncio.

Em redor vibrava, partindo de todas as coisas, a grande voz de Deus. Cantavam as harmonias do criado, pulsava a essência espiritual da vida, a transbordar da forma que a revestia e escondia. Parecia que a natureza, naquele dia celebrava uma festa e entoava uma sinfonia imensa de infinitas vibrações a se abraçarem unidas, em amor, harmonicamente, musicalmente, tecidas numa mesma trama de bondade e de paz. O peregrino sentia um choque em seu coração e estava em êxtase, fora de si. Algo, parecendo um novo poder, penetrava nele e já cintilava em seu olhar, inclinado com um sentido de ilimitada bondade para aquela pobre alma, repelida por todos, e que se tomara tão feroz, talvez porque jamais tivesse recebido bondade e amor.

Silêncio.

Estavam frente a frente, falando-se em diálogo cerrado, feito de sentimentos opostos e contrastantes, num violento assalto de vibrações, através dos olhares. De um lado, o desencadear das forças elementares da vida no primitivo, egocêntrico e prepotente, dominador no caos, ignaro de Deus e rebelde a qualquer ordem e harmonia; do outro lado, o poder da ordem, a que obedecem todos os elementos, coordenando-se fraternalmente em harmonia, no conhecimento da Lei e no Amor de Deus. Estavam frente a. frente, o Lobo e o peregrino, empenhados numa luta desesperada para vencer. A ferocidade ávida e agressiva de um lado, a bondade generosa e pacífica do outro. Enfrentavam-se dois tipos biológicos diferentes, dois exemplares diferentes da vida, que personificavam as forças do bem e do mal, do Amor e do ódio, de Deus e de Satanás. O anjo e a fera estavam frente a frente, sós, diante de Deus. Quem venceria?

Silêncio.

Mas, nesse silêncio reboava a voz de Deus, lampejava Cristo, acima das forças do mal, moviam-se as falanges do bem. A grande sinfonia que a natureza entoava transparecia nos planos de vida mais alta, onde, atingida a harmonização, a felicidade é muito maior. O estridor daquela alma rebelde era uma dissonância triste nesta grande música. Esta, porém, a sufocava com sua potência, quase anulando-a, absorvendo-a em sua harmonia. Descia do alto uma grande onda das forças do bem, para amansar aquela alma, impelindo-a pelas grandes vias da Bondade e do Amor. Ela queria resistir; mas Deus determinara que Ele havia de vencer. Cada vez mais poderosa resplandecia a luz e as trevas recuavam, vencidas. Luta apocalíptica entre as forças do bem e as do mal. O pobre instrumento humano permanecia mudo, como que triturado em meio ao embate dessas forças. '

Assim, atingiu a luta um momento terrível: o peregrino sentiu dentro de si como um estouro e acreditou chegada a morte. Viu, confusamente, o Lobo lançar de si as armas, procurou segurar-se a alguma coisa para não cair, mas instantaneamente se encontrou recolhido nos braços dele.

Estava cumprido o milagre. O Bem, Deus, o Amor, tinham sido mais fortes e haviam vencido.

Os homens da guarda, que tinham visto tudo, correram, largando também suas armas. O Lobo foi levado em triunfo para a aldeia. Todos se abraçaram. Acabara o medo, a preocupação da luta e da guerra entre os dois, verdadeiro inferno. O peregrino organizou um novo regime de paz, no trabalho. E, no amor recíproco, um ajudando o outro, muitas dores desapareceram. Cristo permaneceu entre aqueles humildes, que agora viviam Seu grande mandamento: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei". Assim, também entre os simples e os pobres, pode formar-se aquilo que simbolizava um primeiro núcleo da nova civilização do Terceiro Milênio."